Por que as competências ensinadas na escola não refletem a realidade do mercado de trabalho

A escola de hoje efetivamente dialoga com o mercado de trabalho? Para diversos especialistas em educação, ainda há um longo caminho a ser percorrido para garantir o alinhamento entre as competências ensinadas e as demandas do universo do trabalho.

Apesar de as soft skills estarem em alta na opinião pública, uma análise mais cuidadosa das práticas educacionais aponta para outra direção: imperam, no chão da escola, o ensino de hard skills. “As competências técnicas são fundamentais, mas apenas elas não garantem o ingresso do jovem ao mercado de trabalho”, avalia Fabíola Sarubbi Marangoni, pesquisadora, consultora e professora da Escola Superior de Empreendedorismo (ESE) do Sebrae/SP.

As competências esperadas pelo mercado de trabalho

Em sua pesquisa de doutoramento, Fabíola se propôs a investigar a relação entre as habilidades desenvolvidas em cursos de Administração e as competências exigidas por empresas em seus programas de trainee.

O estudo constatou que, realmente, há uma diferença entre o que se ensina ao estudante e o que se espera do profissional. E mais: cada empresa procura por um conjunto de características variadas. “Elas não esperam as mesmas competências dos formandos. Essas diferentes demandas acentuam a importância de desenvolver o autoconhecimento nos estudantes. Não devemos querer formar um profissional ideal, mas formar profissionais com ideais empreendedores e transformadores, munidos de si mesmos”, avalia.

De modo geral, é essencial que a formação do estudante inclua estratégias para desenvolver sua criatividade, colaboração, comunicação e pensamento crítico. Também são importantes as seguintes habilidades: resolução de problemas, aprendizagem/autodesenvolvimento, capacidade de tomar decisões, iniciativa, autoconhecimento, colaboração, autoconfiança, empreendedorismo, orientação para resultados, dentre outras.

Um alerta para a escola

De acordo com a pesquisadora, é urgente que a área educacional reavalie suas práticas para ofertar uma formação de qualidade. “Vivemos um momento de transição. Sabemos que existirão profissões que ainda nem conhecemos, e, ao mesmo tempo, precisamos preparar os jovens para enfrentá-las”, pondera.

Em países desenvolvidos, por exemplo, a iminente mudança do mercado de trabalho tem motivado uma reviravolta no ensino. Muitas escolas passaram a adotar de forma estruturada um conjunto de metodologias ativas – como a aprendizagem baseada em projetos, a experimentação ativa na natureza e o empreendedorismo – para garantir uma formação integral e condizente com o futuro.

Como incluir o ensino de competências em sala de aula?

Levando em consideração o caráter disruptivo e acelerado que marcará a Quarta Revolução Industrial, o educador não deve engessar suas práticas educativas buscando a adequação do aluno ao mercado de trabalho. Afinal, as exigências específicas mapeadas atualmente podem mudar no futuro.

Por isso,  mais importante é ter as demandas do universo do trabalho como pano de fundo. “Queremos formar um jovem que seja capaz de transformar e criar o mercado de trabalho. Aqui na ESE, por exemplo, miramos num egresso com perfil empreendedor, que seja capaz de fazer conexões não usuais com núcleo do processo de inovação, e que, ao mesmo tempo, consiga perceber detalhes que outras pessoas não enxergam”, comenta Fabíola.

O professor é o principal agente da mudança

Nesse contexto, o papel do professor é fundamental, desde que ele tenha o respaldo da instituição de ensino para adotar práticas inovadoras. O educador precisa entender que deve exercer outro papel em sala de aula. Em vez de transmitir conteúdo, sua tarefa principal será atuar como facilitador, curador e mediador do processo de aprendizagem.

A escola também deve incentivar a autonomia e o protagonismo do aluno em sua trajetória estudantil. Esses dois aspectos podem contribuir para que seja fácil para o jovem, no futuro, continuar aprendendo constantemente. “Aqueles profissionais que não aprenderem a aprender ficarão obsoletos, presos em conceitos e paradigmas passados, e não serão capazes de responder às novas demandas”, completa a pesquisadora.

Essa reflexão é compartilhada pela estrategista de inovação Jaqueline Weigel, que propõe que pessoas e negócios –e consequentemente a educação – se reinventem. Entenda o ponto de vista de Jaqueline e suas ideias para uma atuação relevante no mercado de trabalho do futuro nesta entrevista exclusiva que ela deu ao CER.

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