As inovações tecnológicas dos últimos 20 anos provocaram verdadeiras transformações na nossa sociedade, trazendo com elas novas formas de agir, de pensar, de consumir e de nos organizar.

A geração hiper plugada dos dias atuais não vai mais à escola em busca de informação. Tudo que o que eles precisam saber está à distância de um clique. Mais consciente de suas preferências e com novas necessidades de aprendizado, eles já não cabem mais dentro de uma sala de aula convencional, com os tradicionais 50 minutos de aulas expositivas e um pequeno intervalo entre um tema e outro. É a era dos tutoriais, da interdisciplinaridade, da transmissão de vídeos em tempo real, da construção colaborativa, das licenças e códigos abertos, da gamificação dos estudos e até do trabalho.

Por isso, vamos mergulhar no universo do Ensino Híbrido, uma metodologia que tem sido testada, modificada e aprimorada nas últimas décadas para atender aos anseios da nova geração de jovens (e educadores!), que estimula a cultura empreendedora, a criatividade e busca por soluções. Sempre em movimento, assim como pedem os novos tempos.

Modelo tradicional:

Do ócio à produção

Escola: instituição pública ou privada que tem por finalidade ministrar ensino coletivo; conjunto de professores, alunos e funcionários de uma instituição de ensino; prédio onde funciona esse estabelecimento.

Skholè: ócio; discussão livre.

Escola evoluiu a partir da palavra em latim schola que, por sua vez, tem origem na palavra skholè, do grego. O termo é o mesmo usado para definir lazer, ócio, e remete à geração de conhecimento a partir de um modelo de discussão livre e fluido, com ritmo e formato de aprendizagem orgânicos. Mas em que momento da história o conceito e a prática escolar começaram a se distanciar de seu significado original? Vamos voltar um pouquinho no tempo...

Breve história das escolas

As primeiras formas de ensino surgiram há 4.000 a.C. com os Sumérios, na região da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates. O ensino era praticado em casa e em comunidade, de maneira informal, tendo os pais como os principais responsáveis pela transmissão de conhecimento focado na sobrevivência e na perpetuação de padrões culturais. As práticas de comércio, de agricultura e astronomia deram origem à escrita cuneiforme (escrita feita com objetos em formato de cunha), usada para registrar períodos de colheita, época de cheia dos rios e demais aspectos importantes para a vida em comunidade e para a dinâmica das primeiras vilas e cidades.

Foi somente por volta de 387 a.C. na Grécia Antiga, berço da civilização ocidental e da pedagogia moderna, que o modelo de escola como conhecemos hoje começou a ser forjado. Voltada ao ensino das elites, as escolas não tinham como propósito a formação profissional e o ensino do trabalho manual. Antes, eram espaços para o debate de temas ligados às artes, à filosofia, à política e à aritmética, com o intuito de formar a classe intelectual e dirigente da sociedade.
Foi também nessa época que a figura do professor foi instituída. Os filósofos, chamados mestres, geralmente se reuniam com um grupo de até cinco aprendizes para o ensino das virtudes humanas e da ética. O ensino visava a formação integral, que envolvia corpo e espírito, preparando os homens para o exercício da cidadania e o convívio social.

Os espaços de aprendizado também eram os mais variados - aprendia-se nas arenas esportivas, nos teatros, em atividades coletivas, em reuniões políticas e na arquitetura, por exemplo.

Mas em que momento da história o conceito e a prática escolar começou a se distanciar de seu significado original?
Ensino para as massas

A crescente complexidade do comércio e das práticas econômicas impactou significativamente o modelo educacional e a partir de 1750, em decorrência da Revolução Industrial, a formação de trabalhadores para atuarem nas fábricas e indústrias se tornou a prioridade da educação formal.

A produção em larga escala e padronizada criou a demanda por mão de obra com nível de instrução, no mínimo, básico para operar as máquinas. Ao mesmo tempo, a burguesia passou a ver na escola uma ferramenta poderosa para controle e disciplina da massa trabalhadora.

O grande segredo da educação consiste em orientar as vaidades para os objetivos certosAdam Smith

Para que o ensino chegasse à maior quantidade de pessoas da maneira mais padronizada possível, a lógica da produção industrial foi levada às salas de aula. Muitos alunos em classe, cadeiras enfileiradas, aulas quase exclusivamente expositivas, pouca interação e silêncio. O resto é história… e todos nós a conhecemos bem.

Renovar é preciso

(e urgente!)

Pouca ou quase nenhuma atualização no modelo de ensino foi feita ao longo da história da educação moderna. Na maioria das escolas, o conteúdo continua sendo transmitido em aulas expositivas, tendo o professor como centro das atenções e principal responsável pela aprendizagem, com pouco espaço para a participação ativa dos alunos.

As universidades foram fundadas na Europa Ocidental em 1050 e as aulas tradicionais tem sido a forma predominante de ensino desde entãoScott FreemanProfessor da Universidade de Washington.

As novas gerações

A rápida evolução tecnológica das últimas décadas vem modificando a forma como consumidos, nos relacionamos e, claro, aprendemos. A cada geração, as consequências da tecnologia são refletidas com mais intensidade no comportamento dos jovens e em suas demandas em sala de aula, criando um enorme desafio para professores e instituições de ensino.

A geração Y, de pessoas nascidas entre 1980 e meados dos anos 1990, assistiu bem de perto à democratização do acesso à internet e a transição do mundo analógico para o digital. Computadores pessoais, games portáteis, câmeras digitais, celulares (e logo depois smartphones), os primeiros blogs… tudo isso fez parte da adolescência e juventude da geração Y, que hoje está no mercado de trabalho.

O perfil desses jovens provocou uma necessidade por mudança e foi a partir dos anos 1990 que o termo Ensino Híbrido começou a ser discutido como uma alternativa para o modelo tradicional de educação. A geração que está nas escolas atualmente, chamada Z, porém, já nasceu conectada e dificilmente dissocia a vida online da vida offline. A transformação do formato de ensino tornou-se, então, um caminho sem volta.

Geração Z

Ensino híbrido:

O que é e quais as possibilidades

Híbrido: que ou o que é composto de
elementos distintos ou disparatados.>>>

Mas o que é, afinal, o Ensino Híbrido? Diferentemente do que muitas pessoas acreditam, o Ensino Híbrido não é apenas a simples combinação de aulas expositivas presenciais e virtuais. Ele é baseado na mescla de técnicas e metodologias variadas e de plataformas online e offline, que tornam o processo de aprendizado mais rico, atrativo e eficaz.

Uma das palavras de ordem é a personalização que, não por coincidência, também é uma das premissas do consumo digital. Personalização e experiência - ou, ainda melhor, experiências personalizadas - são elementos fundamentais para os jovens também nos estudos.

Alguns alunos têm mais capacidade de concentração, outros têm atenção mais difusa, uns são mais práticos, outros teóricos, alguns preferem fazer seu próprio horário de estudo, outros precisam de ajuda para estabelecer uma rotina...Se as pessoas são diferentes, porque o ensino deve ser igual? O Ensino Híbrido acredita que os caminhos para a construção do conhecimento são múltiplos e devem ser trilhados levando em consideração o ritmo, a personalidade e as diferentes realidades em sala de aula, se tornando uma experiência única de aprendizado para cada aluno.

PersonalizaçãoOnlineExperiênciaDiversidadeDigitalVídeosJovensEnsino HíbridoGeração ZAutonomiaLiberdade

Para garantir o dinamismo e a diversidade, as atividades podem ser divididas em diferentes momentos:

Aula expositiva
Projetos “mão na massa”
Debates
Visitas guiadas
Exercícios
Pesquisa de campo
Uso de ferramentas digitais
Tarefas individuais ou em grupo e rotacionamento entre estações de aprendizado
O mais importante é que tudo seja combinado de maneira estratégica para potencializar o aprendizado.

Outra mudança que o Ensino Híbrido propõe é no papel do professor. Se antes o professor ocupava um lugar de destaque - muitas vezes, literalmente, em cima de um palanque! - e era visto como o único detentor do conhecimento, agora seu papel é de agente facilitador na construção coletiva do conhecimento. Isso deixa a relação professor-aluno mais próxima e dá mais confiança aos jovens, que se sentem parte ativa do aprendizado.

O uso das plataformas digitais pode ser feito dentro de sala de aula e fora dela. Muitos softwares, apps e games já oferecem soluções completas de ensino, com recursos para as classes ou para aprofundamento individual. Um dos grandes benefícios dessas ferramentas para os professores, além de automatização de tarefas e organização do fluxo de trabalho, é a possibilidade de se obter relatórios detalhados do desempenho de cada aluno. Isso permite com que eles ajam de forma mais rápida sobre os pontos fracos de cada um, oferecendo mais ajuda e recursos ou redirecionando a jornada de aprendizado, se for o caso.

Para os alunos, os recursos digitais são sinônimo de interação e autonomia, uma vez que eles podem escolher quando e como aprender e têm liberdade para fazer e refazer as atividades quando sentirem necessidade. A autonomia acaba tendo outro bom efeito colateral: o senso de responsabilidade do aluno, que passa a ser protagonista de sua trajetória.

Muitas das ferramentas digitais são pensadas no formato de redes sociais, o que traz um componente ainda mais interessante para o aprendizado: a possibilidade de acompanhar e trocar experiências com os colegas durante todo o processo.

A gamificação é outra metodologia que se tornou tendência entre as ferramentas de educação digital. O termo diz respeito não só à inclusão de jogos educativos no aprendizado mas ao uso da lógica dos games (progressão em fases, formato de narrativa, missões individuais ou em equipes, acúmulo de bônus etc.) em outras atividades, com o intuito de combater as aulas enfadonhas e despertar o engajamento dos alunos.

O ensino híbrido abre o horizonte para a personalização tendo a tecnologia como aliada.Fundação Lemann

Vantagens do Ensino Híbrido:

personalizaçãoautonomiacolaboraçãotrabalho em equipedinamismodiversidade

Modelos híbridos

Existem quatro modelos de Ensino Híbrido categorizados pelo Clayton Christensen Institute, dos EUA, uma das instituições de referência no assunto.

modelo flexNo modelo Flex, o aprendizado acontece quase em sua totalidade em ambientes online, que direcionam os alunos para atividades offline em alguns momentos. Os roteiros são individualizados e é importante que professor e aluno estejam na mesma localidade.

modelo a la carteA modalidade A La Carte combina aulas em escolas tradicionais com alguns cursos online, que podem ser realizados dentro ou fora das instituições de ensino.

modelo virtual enriquecidoA experiência do aluno do modelo Virtual Enriquecido acontece em tempo integral dentro da escola. A diferença é que cada curso demanda, além das atividades presenciais, um tempo de dedicação remoto em estudo ou exercícios online.

RotaçãoO modelo de rotação é composto por quatro outros submodelos.

Rotação por Estações de AprendizagemA metodologia de rotação por estações incentiva a construção de uma espécie de circuito em sala de aula, com diferentes estações de trabalho e pelo menos uma delas equipada com recursos digitais. Os alunos se revezam, sozinhos ou em pequenos grupos, entre elas e a ideia é que todos percorram o circuito completo ao final da aula. As atividades devem ser independentes uma das outras, mas todas devem trabalhar, por diferentes perspectivas, o tema central da aula.

Laboratório RotacionalO modelo de laboratório rotacional também funciona com a lógica do revezamento. No entanto, os alunos transitam por apenas dois ambientes diferentes: a sala de aula - ou outro espaço com dinâmica semelhante escolhido pelo professor - e um ambiente com atividades em suportes digitais.

Rotação IndividualNeste modelo, o percurso de rotação é definido a partir de um roteiro individualizado, criado especialmente para atender às necessidades do aluno. Não é necessário participar de todas as atividades, apenas daquelas que sejam pertinentes a cada jovem.

Sala de Aula InvertidaAo invés de ser exposto ao tema da aula pela primeira vez na escola, no método da Sala de Aula Invertida o aluno tem como tarefa pesquisar sobre o assunto antes - em referências próprias ou indicadas pelo professor. Assim, os alunos participam ativamente da elaboração da lição, dividindo os conceitos aprendidos com colegas e professor, que atua como um guia para a construção do conhecimento de forma coletiva. Em um terceiro momento, os estudantes voltam a pesquisar, por conta própria, informações fora da sala de aula, dessa vez para aprofundar e consolidar os conceitos aprendidos.

Desafios

Os principais desafios na disseminação e adoção do Ensino Híbrido no Brasil estão relacionados ao acesso à tecnologia, principalmente na rede pública, e à capacitação dos professores.

Embora o cenário venha mudando positivamente nos últimos anos, ainda há uma grande desigualdade no número de escolas do ensino médio, fundamental e educação básica que contam com laboratório de informática. Muitas vezes, as escolas até são equipadas com computadores, mas não têm acesso à internet ou a uma conexão rápida - fundamental para a utilização dos recursos didáticos. Os equipamentos ainda são defasados e em muitos casos não são portáteis, o que dificulta as dinâmicas em espaços diversificados.

Clique aqui para acessar o Censo Escolar de 2016

A adoção de uma metodologia híbrida também exige mais dos professores. Para lidar com as novas tecnologias e suas rápidas mudanças, eles precisam buscar a capacitação contínua e estar sempre antenados nas tendências do mundo digital.

Também é importante que os educadores tenham consciência de que não basta fazer a transposição das aulas tradicionais para uma plataforma online. É preciso adaptar a metodologia de ensino para as novas mídias, para os diferentes nichos de alunos presentes em uma só turma e, por fim, para cada rota de aprendizado individual. Isso demanda mais tempo e dedicação no planejamento das atividades.

O planejamento também se torna mais dinâmico. Como as ferramentas digitais dão feedback praticamente instantâneo de todas as atividades, o professor tem o desafio de rever seu planejamento a todo momento, incrementando estratégias, adicionando novos recursos ou mudando o ritmo de ensino.

Uma excelente infraestrutura, portanto, não é o suficiente: a mudança da cultura escolar não ocorre do dia para a noite e requer espaço de experimentação e de reflexão do grupo para que surta efeitoLilian BacichDoutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano e co-autora do livro Ensino Híbrido.

Experiências e inspirações:

O que tem dado certo no Brasil

Ginásio Experimental Carioca (RJ)

O modelo de Rotação por Estações tem sido aplicado nos Ginásios Experimentais Cariocas, uma rede de escolas criada pela Prefeitura do Rio de Janeiro em 2011. Os conteúdos de matemática e ciências, por exemplo, são ensinados em conjunto na 7ª série da seguinte forma:

1ª estação:conteúdos de matemática e ciências.
2ª estação:um aluno desafia o outro com duas perguntas mescladas sobre o reino animal e números decimais.
3ª e 4ª estação:atividades nos computadores.
5ª estação:atividade para quem terminou as tarefas antes do tempo. O aluno pode colocar um crachá de monitor eajudar os colegas ou ler revistas de ciências.

EDIFORPII, da rede Municipal de Ferraz de Vasconcelos (SP)Assista ao depoimento
Ginásio Experimental Carioca (RJ)Assista ao depoimento
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