Gestão escolar para o século XXI – Entrevista com Miguel Thompson

Fundado em 2001, o Instituto Singularidades trabalha a formação de professores e gestores da educação com base nas novas necessidades para o Brasil do século XXI. Em outubro de 2010, tal instituto foi incorporado pelo Instituto Península para ampliar e impactar suas ações no âmbito da educação nacional.

Durante a 26ª edição da Bett Educar, em São Paulo, conversamos com Miguel Thompson, diretor-geral do Instituto Singularidades, que falou sobre a influência do mundo 4.0 na gestão escolar. Confira a entrevista a seguir.

1 – Quais são as competências que os gestores escolares devem ter atualmente?

Na medida em que a concepção de escola e as necessidades da sociedade vão mudando, também deve mudar o funcionamento da escola. A gente fala muito da sala de aula e das inovações e se esquece de que elas têm consequências administrativas.

Essa escola que cada vez mais pensa em trabalhar em diferentes projetos de acordo com os interesses dos alunos começa a ter um funcionamento que não é linear: primeira aula, segunda aula, terceira aula, quarta série A, quarta série B. Começa a haver um espalhamento dos alunos pela escola e uma utilização do tempo de forma diferente. O tempo de 50 minutos, por exemplo, já não é mais suficiente para trabalhar a resolução de problemas. Então, temos de começar a pensar a escola como um espaço de performances, que saem do quadrado da sala de aula e muitas vezes ocorrem fora dela. O gestor tem, portanto, de se preparar mais para improvisar. Improvisar, aqui no caso, não é o laissez faire, ele tem de imaginar, de maneira probabilística, as possibilidades de acontecimento quando os alunos começam a trabalhar fora de sala de aula, mais cenários do que diretrizes. O novo gestor trabalha com cenários. Cada vez mais, ele tem que prever as incertezas.

2 – É preciso abandonar a disciplina e transitar para o engajamento?

Os processos vão ser disciplinados pelos alunos a partir do engajamento. Temos de buscar elementos nessa cultura infantojuvenil, no mundo da criança e do adolescente para usar nos nossos planos, projetos e problemas. Isso é fundamental para que o aluno, disciplinadamente,vá e faça seu trabalho. É muito comum ver alunos de programação que gostam de games ficarem horas e horas na frente de um computador organizando, fazendo a programação ou jogando. Temos de substituir a hiperestruturação por uma estrutura baseada na motivação.

miguel thompson

3 – Em sua palestra na Bett Educar, você comentou sobre a mudança no modelo das famílias e como isso impacta a gestão escolar.

As famílias hoje negociam muito com seus filhos: para onde vão, a que restaurante vão, se vão viajar ou não, se vão ver TV ou não. Tais negociações acabam horizontalizando as relações. O pai já não fala: “Faz porque tem que fazer”. Isso é transportado para o mundo do trabalho. Hoje, com a geração millenial, a geração Y, os jovens estão sempre se perguntando: “Para que tenho de fazer isso ou aquilo”? Negociar de maneira respeitosa, mantendo o mesmo nível, é uma competência essencial para todas as ações humanas no mundo contemporâneo. Essa negociação é excelente, porque você começa a conversar com pessoas de diferentes campos, como, por exemplo, os makers ou os youtubers, e começa a aprender com eles e ver oportunidades. Por exemplo, o marketing. É muito importante trazer o ferramental de comunicação e marketing para a gestão escolar a fim de que a gente possa conquistar corações e mentes e produzir novas formas de comunicação.

4 – Nesse contexto, como fica a formação continuada de gestores? Por quais caminhos ela deve passar?

O contato constante com a juventude. O gestor não se pode encastelar em sua sala, ele tem de se movimentar dentro da escola, ter gosto de conversar com as famílias e de ensinar. Em qualquer empresa do mundo, hoje, o CEO tem de ser um educador. Se ele não se educar, não se conhecer e não tiver prazer na diversidade, dificilmente ele vai ser um bom gestor e vai pescar tendências.

5 – Conte-nos um pouco mais sobre a experiência do modelo de gestão Singularidades

O Singularidades tem uma cultura histórica; nosso modelo ativo já nasceu há 20 anos e foi agregando o hibridismo ao longo do tempo, trabalhando o virtual e o presencial. A instituição tem vocação para a conexão com as pessoas. Então, identificado isso, fomos, durante esses anos, melhorando determinado assunto, criando em torno de um tema, sem fugir do horizonte que os ajuda a ser eficientes. Sempre nos perguntamos se uma determinada ação está dentro da cultura do Singularidades ou não, e, se não estiver, a gente elimina. Isso faz com que a gente evite perda de energia.

6 – Vocês falam sobre a importância de o gestor trabalhar com três dimensões – tempo, espaço e relações –, não é mesmo?

O que é legal quando você cria estas categorias “tempo, espaço, relações e papéis”, você sabe que tem de inovar nesses quatro elementos. O tempo é porque os projetos hoje, cada vez mais, não cabem dentro de 50 minutos, porque o mundo não trabalha mais desse jeito. O espaço, porque a escola tem de ir para o território e para o ambiente – tanto presencial quanto virtual. Discutir o mundo significa incluir o entorno da escola ou o entorno da rede social, das mídias digitais. Ela tem de se debruçar, sair da enciclopédia. Os papéis, porque os papéis mudaram, o pai já não é mais o centro, ele já não é mais ‘mandão’ e negocia. E, nas relações, porque o filho hoje traz um conhecimento que a família não tem e um conhecimento da cultura digital que a escola não tem. A troca de conhecimentos é fundamental na escola do século XXI.

Se você é gestor e se preocupa, além do seu desenvolvimento profissional, com o amadurecimento profissional da sua equipe de professores e a criação de uma cultura de inovação na instituição de ensino, que tal conhecer duas ferramentas gratuitas que podem ajudá-lo nesse sentido? Uma delas é o Vivescer, plataforma criada pelo Instituto Península para a capacitação e o desenvolvimento integral do corpo docente, apoiada nas dimensões física, intelectual, emocional e social. A segunda, é  o APEI 50, conjunto de indicadores para entender o quanto a escola é inovadora por meio do diagnóstico do uso de tecnologias digitais e da preparação da equipe da instituição para lidar com elas de forma a gerar resultados positivos em relação à aprendizagem.

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