Muito além do fazer - entrevista com Júlio Gabriolli

Empreendedor por natureza, Júlio Gabriolli fundou, em 2011, a Ação Educação Empreendedora, uma empresa com o objetivo de contribuir para que as pessoas tenham satisfação, alegria, propósito e resultados positivos em suas vidas profissionais e pessoais. Para isso, criou uma metodologia baseada em estudos sobre comportamento humano, que hoje é aplicada em programas de educação em empresas a partir de uma abordagem humana e comportamental.

Em entrevista ao CER, Júlio fala sobre sua definição de empreendedorismo e o potencial do autoconhecimento para transformar negócios e vidas.

 

Qual é a relação entre o propósito e o empreendedorismo?

Quando decidimos contribuir com as pessoas que queriam se aprimorar e empreender, começamos a pesquisar o que o termo empreendedorismo realmente significava. Nenhuma das definições nos satisfazia. Não que fossem erradas, mas estavam sempre relacionadas ao realizar, a transformar uma ideia em um negócio. Sabíamos que empreendedorismo era mais do que isso. Decidimos, então, escrever a nossa própria definição: criar algo que tenha sentido e significado, que contribua para a vida de alguém e que tenha como consequência, entre outros pontos positivos, resultados econômicos.

 

Não necessariamente o indivíduo precisa ter vontade de mudar o mundo, mas o desejo, por exemplo, de contribuir para que as pessoas cheguem mais cedo em casa ou que tenham mais dinheiro no banco. Há sempre uma relação com o outro, porque empreender sem significado é um fazer como outro qualquer.

 

A geração dos millenials –  que entrou há poucos anos ou está ingressando agora no mercado de trabalho – pertence ao que tem sido chamada a ‘era do propósito’, em que encontrar significado no trabalho importa mais do que o retorno econômico e a estabilidade. Também é uma geração que depende do empreendedorismo para criar novas formas de trabalho, com um mercado tão saturado. Como você enxerga essa relação?

As mudanças que estamos vivendo têm demonstrado que os planos de longo prazo estão cada vez mais vulneráveis e é difícil prever como o mercado vai estar daqui 10 anos. Isso traz um ingrediente de bastante dinamismo, de pouca previsibilidade e de muita mudança aos negócios.

 

Essa geração tem uma perspectiva de curto prazo, demanda resultados mais rápidos do que as gerações anteriores. No passado, as pessoas entravam em uma empresa para ficar 10, 15 anos e encaravam a vida profissional com uma perspectiva para o futuro. A geração de hoje quer uma oportunidade de trabalho – e pode ser um projeto, um negócio ou um emprego – que dê resultados de curto prazo. Como muitos negócios têm essa dinâmica rápida, as duas variáveis se casam. Temos projetos e negócios que vão durar muito pouco tempo e pessoas que estão buscando exatamente isso.

 

O que me preocupa é que existe uma visão um pouco descomprometida dessa geração que, a longo prazo, pode trazer consequências sociais, econômicas que não sabemos quais serão. Ainda acredito que muitos projetos demandam uma visão de médio e longo prazo.

 

Não sei como os jovens vão lidar com isso. Talvez os que tiverem a paciência terão empreendimentos próprios de sucesso. E os que não tiverem essa paciência serão excelentes colaboradores em projetos de curta duração.

 

Qual o papel do autoconhecimento no processo de empreender?

O autoconhecimento tem um papel fundamental porque ele dá liberdade para que cada um faça as próprias escolhas de maneira consciente. Dificilmente escolhemos algo que é importante para nós sem saber quem, de fato, nós somos. Se tiramos a capacidade de cada um escolher a partir de si, nos tornamos suscetíveis a nos envolver em coisas nas quais não vemos sentido.

 

De quais maneiras a Ação Educação Empreendedora desperta isso nas pessoas em seus programas?

Em primeiro lugar, fomos buscar fundamentação e ganhar musculatura para que pudéssemos atuar nesse campo. Temos formação em um tema chamado Biologia Cultural, desenvolvido por uma escola de Santiago, no Chile, que nos permitiu entender o comportamento humano em sua profundidade e então criar recursos que nos ajudassem a trabalhar todas essas questões.

 

Na prática, todos os conceitos e temas trabalhados nos programas e treinamentos necessariamente devem partir de questões concretas dos empreendedores. Quando alguém não está conseguindo desenvolver seu negócio, por exemplo, o problema envolve as crenças que ele tem, seus medos ou a falta de algumas competências. Então trabalhamos com a realidade de cada um, entendendo que tudo o que a pessoa traz é válido: o conhecimento, a falta de conhecimento, o medo, a motivação, a desmotivação, os sonhos, os desafios. Por um lado, isso ajuda a assumirmos um campo muito pragmático e, por outro, transformador.

 

E como a atitude empreendedora pode transformar a vida das pessoas fora do ambiente de trabalho?

Como o processo envolve o autoconhecimento, o empreendedor se desafia, reflete sobre si e busca trilhar um caminho de aprimoramento e evolução e negócio. Tudo isso acaba se transformando em hábitos pessoais. A pessoa que é disciplinada nos negócios provavelmente tem mais facilidade de se disciplinar em sua alimentação. Quem aprende a reconhecer o cliente como uma pessoa que tem problemas, que precisa ser ouvido e bem atendido, passa a repensar as relações da sua vida como um todo. E isso acontece de maneira muito natural, já que nossa abordagem é muito pragmática em relação negócio. Esse, inclusive, é um relato muito frequente. Os participantes apontam os ganhos do programa para o empreendimento, mas reconhecem que, acima de tudo, se tornaram pessoas melhores. Isso mostra que estamos sendo pertinentes e que a mudança de fato está acontecendo na raiz.

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