Novo olhar para o futuro da educação - entrevista com Thiago Chaer

A Future Education, primeira organização latino americana focada no desenvolvimento de startups de educação, tem como objetivo desenvolver, em 10 anos, 240 EdTech Startups, por meio de seu programa de aceleração, impulsionando a melhoria da educação brasileira.

 

O CER entrevistou o cofundador da empresa, Thiago Chaer.  Além de empreendedor educacional, ele é coautor do Compromisso de Privacidade de Dados Educacionais, palestrante, colunista das revistas Linha Direta e InfoGeekie e faz parte da Comissão Especial de Educação Digital na OAB (2016-2019). Thiago fala sobre o mercado brasileiro de startups EdTech e as novas configurações da educação no país. Confira.

 

1- Existe um interesse crescente das startups em investir na educação. De onde você acredita que vem esse interesse? Quais são os principais benefícios de startups incentivarem a inovação e os novos modelos/ferramentas de ensino?

Ao contrário do que vemos nos Estados Unidos, onde a maioria dos empreendedores EdTech são professores, aqui no Brasil a maioria dos empreendedores da área não passou pela experiência educacional. O que nos parece é que, apesar de existir uma falta de confiança no país, há uma boa intenção por parte de alguns empreendedores em mudar o Brasil através da educação. Outro fator bastante interessante e que tem atraído muitas startups estrangeiras é o tamanho do mercado. De fato, o mercado brasileiro de educação movimenta muito dinheiro.

Acho que a maior contribuição desses empreendedores, que não têm a experiência educacional, é exatamente trazer um novo olhar para a educação. E isso não tem acontecido só com as EdTechs. As próprias instituições de ensino têm contratado gestores e profissionais de outras indústrias para atuarem na educação. Isso tem proporcionado um frescor que é muito positivo.

 

2- Qual a diferença entre acelerar um negócio e acelerar um negócio voltado para a educação?

Entender a cultura educacional é um dos pontos principais para uma EdTech. Cada negócio tem suas especificidades como o agronegócio, o mercado financeiro, entre ouros. Você precisa entender quem são as pessoas impactadas, que é algo sintomático. Se você pensa em uma solução para formação de professores, por exemplo, ela impacta também o aluno, a escola e toda a comunidade. Por isso é importante conhecer a cultura.

Outro aspecto relevante para as EdTechs é entender seu potencial transformador. Algumas ficam focadas no produto mas, no caso da educação, não estamos falando de um produto de internet, que as pessoas compram e saem usando. O que se vê nas EdTechs de mais sucesso é que são focadas no propósito e se preocupam com o aprendizado do aluno, o desenvolvimento do professor e a melhoria da qualidade do ensino na escola.  O propósito é sempre o cerne de uma EdTech, considerando apenas as que atendem o mercado formal de educação.

Ainda existe o mercado informal, de cursos livres, homeschooling, novos modelos de educação, entre outros, onde se tem mais liberdade. Aí cabe ao empreendedor usar sua capacidade criativa para impactar positivamente a sociedade com soluções que atendam ao enorme mercado.

 

 

3- Atualmente, quais são os principais desafios para as novas escolas?

Podemos separar as escolas por segmento ou classe social. Pode parecer estranho, mas existe uma diferença quando falamos de educação básica ou de universidades que atendem alunos de classe A+. Normalmente, os tomadores de decisão são os pais, até mesmo no ensino superior. Eles pertencem à geração X ou baby boom e estão acostumados a uma educação formal, conteudista, a ver o filho estudar muito, diariamente, até conseguir seu diploma. E aí existe um contra-senso com as novas metodologias, que permitem que o aluno tenha mais tempo livre e trabalhe por projeto. O aprendizado é mais efetivo, mas do ponto de vista dos pais parece que o filho não está fazendo muita coisa.

 

A escola que quer se reinventar precisa entender que não pode fazer isso da noite para o dia, porque depende das matrículas para desenvolver seu negócio. É preciso comunicar efetivamente os pais sobre as mudanças, as razões, o tipo de metodologia a ser implementado e ter um planejamento de gestão da inovação. Existe o viés do erro também. As escolas têm que se permitir errar, reconhecer o erro e saber justificá-lo, incorporando a cultura do aprendizado. É engraçado, pois elas trabalham com aprendizado que não comporta o erro. Ao aceitar o erro, elas também devem incorporar o processo de aprendizagem organizacional, vendo a si mesmas como organizações que aprendem.

 

Já nas escolas públicas existem várias iniciativas acontecendo, mas encontramos muitos desafios. Os professores mais resistentes, por exemplo, não podem ser mandados embora. Então é preciso encontrar uma forma de contornar isso, trazendo-os para o time, convencendo-os de que a mudança também contribui para o desenvolvimento deles. Do ponto de vista dos alunos, não há muita cobrança dos pais, a não ser nas escolas que conseguiram se aproximar das comunidades e têm uma gestão participativa. Do contrário, o aluno está praticamente sozinho. A implementação de inovação depende muito da escola e acaba acontecendo top-down: a escola decide, implanta e não precisa comunicar à comunidade sobre o que está acontecendo. Não é a melhor prática – como eu disse, o melhor é ter um planejamento, indicadores, alinhamento com a sociedade, impacto naquele local.

 

Além disso, os alunos de classes mais baixas têm necessidades diferentes dos alunos de classes sociais mais altas. Isso obviamente impacta o projeto de inovação. Não há como esperar o mesmo resultado desses dois perfis de público. É preciso analisar bem o público-alvo.

 

 

4-  Quais são as demandas da nova geração de alunos para a educação?

Os alunos querem muita prática, não conseguem ficar sentados por muito tempo ou fazer uma atividade sem propósito. Há um consenso em vários estudos de que a prática, a aprendizagem por projeto e baseada em problemas, é fundamental. Os alunos querem se sentir protagonistas. Essa geração já é protagonista de algumas atividades, ao contrário da minha geração, por exemplo. Eles tomam muitas decisões por conta própria, celular ou com a ajuda de amigos e aprendem por meio de dispositivos móveis ou pelo computador. Então têm autonomia e se sentem mais capazes. Se esses jovens não encontram essa mesma liberdade em sala de aula, ficam frustrados e sentem que falta alguma coisa.

As metodologias de aprendizagem precisam estar alinhadas ao novo momento, propiciando experimentação, discussão e interação. Ao contrário do que falam, que é a geração do mimimi, os jovens têm um alto potencial de transformação, se tiverem acesso às ferramentas certas.

 

 

5 – E o que se espera dos novos educadores?

Na Future Education, gostaríamos que o novo professor, aquele que começa a trabalhar na educação, pense diferente e queira implementar novos modelos. Isso vai exigir que ele tenha múltiplas habilidades e competências. Não acreditamos que o curso de pedagogia, como está estruturado hoje, ofereça esses instrumentos. O professor deve entender um pouco de sociologia, tecnologia e dominar a técnica do ensino e aprendizagem, tanto da pedagogia quanto da andragogia. E se ele quiser ir para um viés de gestão da escola, deve conhecer sobre gestão da inovação e outras áreas complementares.

Antigamente não existiam especialidades e as pessoas tinham competências diversas, o mesmo que temos visto atualmente nas empresas. Não basta ser um bom engenheiro, é preciso entender o que acontece em outras áreas e estar aberto a experimentar novas referências. Elas compõem o profissional inovador e propiciam um novo olhar para o que está sendo feito.

 

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