Orientação vocacional: como preparar alunos para o trabalho do futuro

“O que você vai ser quando crescer”? Comum durante a infância e nos processos tradicionais de orientação vocacional, essa pergunta talvez já não faça mais tanto sentido para as crianças e os jovens dos dias de hoje. A verdade é que não há mais uma única carreira a ser escolhida, mas sim uma multiplicidade de atuações possíveis em um mercado de trabalho cada dia mais transformado pelas tecnologias.

Jornada de trabalho flexíveis, crescimento do emprego informal, surgimento das organizações exponenciais e do empreendedorismo como uma das opções de carreira. Para muitos jovens,  atualmente a escolha de uma carreira é um momento mais livre e instigante. Mas que ainda traz muitas angústias. Para falar mais sobre o processo de orientação vocacional e a escolha de uma profissão, conversamos com Mara Vieira Martins, psicóloga da Escola de Formação Gerencial do Sebrae em Belo Horizonte (EFG), que acompanha de perto esse momento tão importante na vida dos jovens. Confira!

orientação vocacional

Mara Vieira

1 – Em seu trabalho de orientação vocacional da Escola de Formação Gerencial do Sebrae, quais as principais diferenças que você percebe nos jovens dos dias de hoje e naqueles de algumas décadas atrás, no que diz respeito à escolha da carreira?

Percebemos que o mercado mudou, e as novas exigências mudaram muito a visão do jovem em relação à carreira e consequentemente a forma como fazemos a orientação vocacional. Nós temos um perfil muito diferenciado aqui na EFG, uma vez que os jovens já chegam com o viés bastante voltado para empreender. Com isso, eles têm uma visão de construção de carreira um pouco diferente, creio eu, da dos jovens das outras escolas. Mas ainda há uma angústia muito grande na maioria deles.

Isso porque eles são muito novos, ainda sofrem pressão grande das famílias para decidir e influenciar o que eles querem. Mas o que eu vejo nos nossos jovens é um conflito  muito expressivo para decidir entre o que gostam e o que querem. Há um viés muito interessante: a escola é muito baseada na condição financeira – ou seja, que custo eu posso assumir, que curso eu posso pagar? –; na opinião da família – é uma profissão que meus pais aprovam? –; na possibilidade de ganharem dinheiro e, em seguida, algo que eles levam em consideração hoje, mais do que antes, é a realização – o gostar de fazer, o ter prazer em fazer. Esses pilares são os mais comuns.

Muitos têm como objetivo montar o próprio negócio e nem querem chegar a fazer uma universidade, o que é muito interessante, já que vai totalmente na contramão do que a maioria dos pais e das escolas têm como orientação. Isso não era um desejo comum entre esses jovens, mas hoje já passa a ser uma opção. Eu converso muito com eles sobre isso: tudo são escolhas, até mesmo não fazer uma universidade de imediato. É uma escolha possível, mas que exige que eles tenham segurança e saibam conversar e negociar com os pais.

O mundo do trabalho mudou muito. Tivemos uma revolução imensa provocada pela tecnologia, o que fez com que essa geração chegasse muito diferente à escola: muito mais conectada, mas, ao mesmo tempo, mais ansiosa, com o contingente de informações a que  tem acesso . Muitos deles também têm o desejo de se mudar, não querem fazer carreira no próprio país e veem a possibilidade de trabalhar em outros lugares. As perspectivas são muito mais amplas atualmente.

2 – A geração mais nova, a Z, tem uma relação muito forte também com o propósito e a vontade de mudar o mundo, não é?

Sim, percebo essa consciência social muito mais forte hoje do que há cinco anos, por exemplo. Existe uma preocupação em fazer a diferença, isto é, muitos desenvolveram esse olhar para o outro, para o social, para serem mais respeitosos com as diferenças. Tanto que eles são uma geração muito tolerante, o que é um aspecto bastante positivo.

3 – Hoje em dia, as competências, e não só o conhecimento técnico, têm peso também mais importante do que antigamente. Como isso influencia o trabalho de orientação vocacional?

Na EFG trabalhamos com o aluno, ajudando-o a identificar tais competências e quais são aquelas que ele quer desenvolver. Então, é um olhar muito voltado para que ele se descubra e identifique quais são as características mais marcantes que eles já trazem. Procuramos entender também os movimentos do mercado, o que está ocorrendo no mundo e quais atitudes são exigidas deles para que tenham uma carreira bem-sucedida. O sucesso, inclusive, é uma perspectiva com a qual trabalhamos: o que significa de verdade ser bem-sucedido?

Durante a orientação vocacional, trabalhamos com os alunos este olhar: o que eu sou, o que eu quero e para onde eu vou. Também temos um modelo que os coloca próximos de profissionais que já atuam no mercado e até de algumas empresas, para que eles consigam ver outras realidades e se sintam mais seguros na hora de fazer suas escolhas.

4 – Como a educação empreendedora pode transformar o pensamento em relação à carreira e à profissão?

Quando falamos de empreendedorismo, pensamos em empreender na própria carreira, o que independe da profissão. Ou seja, é preciso desenvolver determinadas competências e habilidades independentemente da profissão que escolher. Então, dentistas, advogados e até mesmo executivos vão depender de algumas competências essenciais para que alcancem o sucesso. O empreendedorismo aqui é uma pauta constante, desde o processo de seleção; por isso, muitos conseguem empreender na própria vida e na atuação profissional, em uma perspectiva macro.

5 – De quais forma a família pode ajudar para que esse processo seja saudável e tranquilo?

O papel da família no processo de orientação vocacional é fundamental: ela é que vai estimular e dar todo o apoio para que o jovem passe por esse momento, que é difícil, e dar subsídios a fim de que eles conheçam suas competências, habilidades e as várias profissões que existem. Em muitos casos, porém, a família também pode ser um fator complicado. Porque é muito comum que os pais ainda tendam a incentivar profissões mais tradicionais, ou porque já existem outros profissionais da família ou porque, na fantasia deles, é algo que vai dar mais dinheiro. Então a família tanto pode facilitar o processo quanto se tornar um peso.

A primeira coisa que acredito que as famílias devam fazer, nessa época da vida do jovem, é tentar entender a quais carreiras   ele se identifica, para que elas possam ajudá-lo a pensar nas escolhas e ver se essas condizem com o que ele deseja. Em segundo lugar, os pais devem buscar entender esse movimento dos últimos anos: as mudanças no mercado, as profissões que estão surgindo e também desaparecendo, bem como a oscilação constante no mundo do trabalho. Os pais devem estar tão enteirados quanto os filhos, no sentido de compreender o que está acontecendo com as profissões, para que eles também possam mudar alguns aspectos da própria visão em relação ao assunto.

Gostou de entender o ponto de vista de quem trabalha com os alunos durante a orientação vocacional? E sobre os jovens: como você acha que a educação empreendedora tem transformado a perspectiva deles sobre a profissão? Conversamos com alguns deles sobre isso. Confira as respostas neste slide post!

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