Pelas lentes do empreendedorismo social – entrevista com Guilhermina Abreu

Transformar o limão em uma limonada. A expressão, muito usada por empreendedores, busca o lado positivo de cada situação desafiadora e foi levada muito a sério por Guilhermina Abreu. Em 2017, ela foi vencedora do Prêmio Educação Empreendedora, promovido pelo Sebrae e pela Endeavor, e hoje está à frente do projeto Embaixadores de Minas, organização que promove o empoderamento de alunos do ensino fundamental de escolas públicas, e do projeto Nação, ferramenta para empreendedores sociais em Belo Horizonte.

Mas nem tudo foram flores na trajetória de Guilhermina. Como boa empreendedora, ela aprendeu a criar soluções para as suas angústias e as dores da sociedade, a partir da sua experiência pessoal com a educação. Conversamos com Guilhermina sobre sua relação com a educação e o empreendedorismo social. Confira!

Sua experiência com a educação influenciou muito na decisão de se tornar uma empreendedora social? Fale mais sobre a sua trajetória de formação e como ela despertou a vontade de empreender.

Minha trajetória com a educação começou desde pequena, antes mesmo da escola. Meu pai e minha mãe nasceram completamente surdos, mas estudaram em escolas em que a deficiência não era uma barreira para o aprendizado. Com isso, eles se formaram, constituíram família, trabalharam. Foi o exemplo deles que me fez acreditar no poder da educação desde sempre.

Quando pequena, eu estudava em escola particular com uma bolsa de estudos. Quando completei oito anos, meus irmãos e eu tivemos que nos mudar para uma escola pública. Fiquei muito assustada com a diferença na qualidade do ensino e percebi que existe um verdadeiro abismo entre a escola privada e a escola pública no Brasil. Eu sabia que a educação era importante, mas entendi que ela não era acessível a todos. Por isso, fui uma aluna desanimada com a escola. Mas no terceiro ano, tive a oportunidade de estudar no Núcleo de Empreendedorismo para Jovens (NEJ), do Sebrae, e a experiência foi transformadora.

O NEJ foi tão importante que comecei a pensar em como levar aqueles conhecimentos a mais pessoas. E aí surgiu a ideia do Embaixadores de Minas. Nós nos reuníamos em praças para pensar em como tornar a educação pública melhor e, logo em seguida, criamos o Embaixadores da Escola, uma metodologia para dar mais qualidade ao ensino da rede pública. Foi uma solução para problemas que doíam em mim.

Na faculdade, fundamos o Ibmec Social, com a intenção de aplicar os conhecimentos acadêmicos no empreendedorismo social. No ano passado, ganhei o Prêmio de Educação Empreendedora por conta do projeto e tive a oportunidade de passar um tempo estudando em Babson College (EUA), referência em empreendedorismo no mundo. Hoje divido meu tempo entre o Embaixadores de Minas e o Nação BH – aceleradora de empreendimentos sociais.

Quais são as diferenças fundamentais entre o empreendedorismo social e o tradicional?

No cerne de um empreendimento tradicional está o lucro. Também é possível obter lucro no empreendedorismo social, já que existem várias definições do que é um negócio social. Todavia a razão da existência de qualquer organização social é causar transformação, o propósito tem papel central.

Como você percebe a qualidade do ensino de empreendedorismo na escola pública?

Na verdade, a educação empreendedora nas escolas públicas brasileiras é muito rara e pontual. Existe uma discussão na educação do país em torno de evitar a criação de outras disciplinas para os currículos. No caso da educação empreendedora, a questão não é simplesmente criar mais uma disciplina obrigatória. Empreendedorismo não precisa, necessariamente, ser mais uma matéria para os alunos. É uma forma de enxergar o mundo e pode ser ensinado de maneira transversal em todas as outras disciplinas, além de não exigir grandes recursos. A educação empreendedora ajuda os jovens a olhar para os problemas de outra maneira, buscando soluções. E isso é uma grande oportunidade. As escolas públicas são locais com diversas questões, e a própria vida desses jovens também. Há muitos problemas a serem resolvidos; o terreno é muito fértil para o empreendedorismo.

Hoje você é empreendedora. Pensando nos desafios que enfrenta no dia a dia, o que gostaria de ter aprendido na escola?

Tive a oportunidade de obter uma formação empreendedora intensa no NEJ, mas o que falta nas escolas é ensinar a atitude empreendedora. Falta a elas mostrar ao jovem que ele deve sair de uma posição passiva e despertar nele a vontade de querer fazer parte do mundo ativamente. Todo empreendedor vai passar por muitos desafios, e é difícil preparar as pessoas para cada um deles. Cada caso é um caso; por isso, acredito que coragem e resiliência são os valores mais importantes a serem ensinados no final das contas.

Recentemente, você deu uma palestra no TED e falou muito sobre autoconhecimento. Qual a importância dele no empreendedorismo?

No Embaixadores de Minas, acreditamos e reforçamos que todo ser humano tem muita potencialidade. Às vezes, falamos de empoderamento como se o poder fosse dado por alguém, viesse de fora para dentro. Na realidade, porém, temos uma luz dentro de nós, e o que falta é um projeto ou uma iniciativa que faça acender essa luz. E conhecer a si mesmo é olhar para dentro e pensar: eu posso fazer. A partir do momento que olhamos para dentro de nós, começamos a acreditar que podemos realizar. Esse é o primeiro passo para empreender.

Além disso, ter uma rede de apoio é muito importante. Devemos aprender a usar as conexões para fazer acontecer. Sozinhos, não avançamos muito. Na minha trajetória, tive o exemplo dos meus pais e conheci professores que acreditaram na minha potencialidade. Isso fez toda a diferença!

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