Transformação por pessoas e negócios digitais - entrevista com Jaqueline Weigel

Precisamos nos alfabetizar mais uma vez. É o que defende Jaqueline Weigel, estrategista de inovação, instrutora de liderança exponencial e CEO da W futurismo. Jaqueline alerta que a revolução digital é apenas a primeira de uma série de dez grandes mudanças que devem ocorrer nas próximas décadas e que os avanços em três principais áreas –- genética, robótica e nanotecnologia – vão transformar o mundo como nós o conhecemos atualmente. Tudo isso terá grande impacto na forma como nos organizamos socialmente e como fazemos negócio, modificando, por consequência, as escolas e as empresas.

A forma de nos prepararmos para tantas mudanças? Reaprender. “Será que os pais, os professores e as lideranças sabem que eles é que devem ser alunos? Eles é que devem alfabetizar-se e se tornar pessoas digitais. Só assim vão ajudar os jovens que estão vindo aí!”, provoca Jaqueline.

Em entrevista ao CER, ela comenta o que entende por alfabetização digital e como vê o futuro das organizações e das empresas em um mundo não linear. Confira!

Em suas palestras, você fala sobre  a necessidade de uma alfabetização digital. O que é ser uma pessoa digital?

Ser digital significa ter um mindset curioso, aprender a todo momento, explorar fronteiras, fazer algo de bom no presente e, ao mesmo tempo, desejar um futuro melhor e trabalhar por ele. Capacitar-se todos os dias, em todos os sentidos humanos, não só profissionalmente, mas em termos de relacionamento. Ativar a criatividade, ser autêntico, corajoso. É se libertar dessa prisão do mundo linear. Vivemos por muito tempo em caixas, moldados. Mas agora as caixas estão abertas; nós podemos tudo!

Então, ser digital tem mais a ver com o jeito de pensar e ser, com o modelo mental, do que com dominar tecnologias. Acredito que as tecnologias são apenas ferramentas às quais teremos de nos habituar.

Agora, em termos de negócios, ser digital é pensar o que você quer ser, qual o propósito e qual impacto positivo você espera causar, e como você vai digitalizar seus produtos e serviços. Não é inserir mais tecnologia no negócio; isso é uma inovação tradicional. A transformação digital é mudar as coisas de estado, usando tecnologia e novos modelos.

Todos nós teremos de nos alfabetizar para nos tornarmos pessoas digitais em um mundo não linear. Mas qual é o peso dessa transformação para professores, líderes, pais e pessoas que naturalmente têm a responsabilidade de educar?

São eles que supostamente deveriam andar à frente nessa onda de mudança. E o que vem acontecendo? Como professores e líderes não estão preparados, são os alunos e as equipes que estão comandando a transformação.

Não é uma guerra entre lados, claro. Mas acredito que professores e pais são os primeiros que precisam alfabetizar-se novamente, para ser capazes de andar à frente ou junto dos alunos, que estão se autoeducando.

O mesmo se dá no mercado de trabalho. Os profissionais estão se qualificando, e os líderes acabam se tornando grandes barreiras, porque eles não falam o idioma do mundo atual, já que insistem e sabotam as novidades.

O que ocorre é que a geração anterior quer muito manter o que ela conquistou. É um desejo legítimo; isso, porém, não é mais possível no mundo de hoje. Os modelos que usamos de sociedade, de família e de negócios não funcionam mais no mundo digital. Precisamos honrar o que passou, mas aceitar que esse ciclo terminou. É hora de experimentar e criar “o novo” juntos.

Nesse sentido, o empreendedorismo tem forte relação com a sustentabilidade e com a nossa permanência no mundo, certo?

Gosto do nome empreendedorismo sustentável. Empreender, há um tempo, significava abrir o próprio negócio. Hoje, empreender passou a ser uma atitude social. Se você quer trabalhar dentro de uma empresa, tem de ser intraempreendedor. Se quer abrir o próprio negócio, tem de ser empreendedor. Políticos, pais de família, professores devem ser empreendedores também. O empreendedorismo foi ressignificado e hoje tem a ver com ser protagonista, alguém que faz acontecer, que influencia e lidera.

Acredito que todos nós devemos subir um degrau e olhar o mundo de cima, entender que tudo é interligado. Quando decido qual futuro quero para mim, preciso considerar o que está acontecendo com a economia, a política, a tecnologia, o meio ambiente. Todos esses aspectos devem permear nossas decisões de futuro, fazer parte dos debates em sala de aula e das discussões de negócio.

Os negócios estão pobres em termos de estratégia e de visão do futuro. Se você não colocar seu negócio a serviço da sociedade, ele não funciona mais. Basta observar a nova geração. Eles não querem trabalhar no mundo corporativo, que atrofia e limita. O mundo novo é mais enxuto, mais simples e altamente mutável.

De acordo com seus estudos, as empresas do futuro não terão marcas, padrões, donos e não serão reguladas. O mesmo vale para as escolas do futuro?

Hoje em dia, ainda temos as empresas tradicionais no mercado. Todavia, as digitais são aquelas que já não têm mais sede. E as exponenciais são as com alto valor de mercado –  mas que não têm patrimônio – e pensadas para o curto prazo, uma vez que elas próprias se rompem. As novas empresas têm modelo distribuído, são “transempresas”, e atendem à economia do futuro: pequenas sociedades que se auto-organizam de acordo com o que elas precisam em determinada época.

Eu acredito que as escolas serão também “transescolas”, com espaço para papéis diferentes. Em alguns momentos, seremos alunos; em outros, professores, e em outros momentos, seremos parceiros. Esse exercício líquido para o ser humano é muito difícil porque ele quer controlar. E não dá mais para controlar.

Pensando na escola do futuro, não creio que os professores vão desaparecer. Todos nós seremos professores situacionais, líderes situacionais ou alunos situacionais. Os professores serão sempre educadores e agentes de mudança, se eles acompanharem as transformações do mundo.

Você comenta que estamos só no início de um período de cerca de 20 anos que será marcado por grandes transformações. Como podemos nos preparar para o que está por vir?

Primeiro, devemos parar de nos distrair com o que temos para fazer todos os dias. Precisamos viver o presente, mas abrir espaço para entender os sinais do futuro que está se formando. Todos nós precisamos estudar, sair da nossa caixinha, conviver em ambientes novos, aprender coisas novas.

O grande problema é que as pessoas não estão indo atrás e escolhem fazer o que todo mundo faz. Nem tudo é para todo mundo. A gente precisa parar, criar um espaço, ver o que está ocorrendo e achar uma trilha para seguir. É preciso ter tempo. As pessoas estão muito afogadas em coisas para fazer, enquanto o mundo novo vai acontecendo.

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