Avaliação pedagógica para aulas on-line: quais são os desafios da pandemia? 

Entrevista com Tatiana Filgueiras, vice-presidente do Instituto Ayrton Senna

Entre os tantos desafios que a pandemia do novo coronavírus – e a consequente suspensão das aulas presenciais – têm apresentado às escolas em todo o mundo, a forma de avaliação do aprendizado dos estudantes é um dos que mais preocupam gestores educacionais e professores. Para falar sobre o assunto, conversamos com Tatiana Filgueiras, vice-presidente do Instituto Ayrton Senna. Na entrevista, ela comenta sobre a avaliação pedagógica feita na Itália, país em que vive, os desafios que estudantes enfrentam durante o momento de aulas on-line e a importância, mais do que nunca, de trabalhar e avaliar as competências socioemocionais na Educação. Confira a entrevista na íntegra a seguir.

1 – Como as avaliações têm sido feitas aí na Itália neste período de aulas on-line, Tatiana?

As crianças ficaram 16 semanas sem aula – agora, já estão na terceira semana de férias – então são 19 semanas com escolas fechadas no Norte da Itália e 18 semanas no país todo. Mas as crianças ficaram um dia sem aula, um dia apenas. O fechamento foi anunciado em um domingo; na segunda, recebemos um comunicado da escola dizendo que na terça-feira a nova programação começaria.

Por que tudo foi tão rápido? O Ministério, em um curto espaço de tempo, soltou as diretrizes macros, que envolviam curadoria de material didático, curadoria de plataformas digitais e orientações sobre avaliação. Há duas razões para tudo ter sido tão rápido. Quando a coisa acontece a distância, isso se dá de forma mais desigual do que ocorria antes. Alguns alunos terão acesso à tecnologia e pai e mãe escolarizados ajudando, e outros não contarão nem com uma coisa nem com outra, ficando defasados. Se você não faz um método de avaliação, agora, que seja coerente e justo, você amplia muito a desigualdade e de forma muito rápida.

A orientação dada, com a qual eu concordo, foi: em vez de focar em avaliação com caráter somativo, o foco deve ser a avaliação formativa, isto é, uma avaliação que ajuda a diagnosticar e a entender o que o aluno precisa, para que o professor possa suprir essa necessidade. A nota do Ministério da Educação diz que o foco é a avaliação formativa e que o professor não deve avaliar o aluno sozinho, mas com um comitê de professores. Isso é interessante porque ninguém estava preparado, ninguém havia passado por essa experiência antes, não existe um consenso construído ou conhecimento compartilhado em cima dessas experiências. Neste momento, é muito importante os professores estarem em grupo para fazer essas análises, para que elas sejam menos enviesadas.

Um dado da OCDE diz que os países que estão se saindo melhor são aqueles em que os professores já trabalhavam em times, em cooperação, exercitando uma competência do século XXI. O que é bacana nisso? A mesma competência que vai ajudar você entregar aos alunos esse conhecimento importante para o século XXI é a competência que vai ajudar a avaliar de forma mais justa e útil no momento, que é esse trabalho em time. O foco da avaliação passa a ser juntar um grupo de professores para tentar entender o que cada aluno conseguiu aprender e absorver a distância, para ter um diagnóstico mais eficaz; quando eles tiverem oportunidade de trabalhar presencialmente, conhecerão melhor cada aluno e o que foi possível fazer. Com isso, é viável não só customizar o atendimento na volta, mas enturmar mais adequadamente os alunos

2 – Quais são esses novos aspectos que devem ser considerados na avaliação e na educação como um todo, diante da realidade atual?

Um deles é o ensino híbrido, porque, se compararmos vários países em relação à estratégia de aprendizado dos alunos, o Brasil ainda utiliza amplamente as estratégias de aprendizado menos eficientes, como as focadas na memorização, na leitura e na releitura. Existem planos de aprendizado que trabalham as competências complexas, como chamamos, e que são muito oportunas no ensino híbrido, porque descobrimos que o tempo presencial é um privilégio. Ninguém consegue replicar, em casa, esse tempo privilegiado que é quando o aluno está com o professor e seus colegas. Não dá para gastar esse tempo usando estratégias antigas de aprendizagem como passar conteúdo na lousa, coisas desse tipo. O Brasil também é um dos países que mais gastam tempo para que o professor consiga manter a disciplina na sala de aula. Gasta-se muito tempo com estratégias de aprendizado menos eficientes e em manter a ordem e disciplina na sala de aula, sendo que uma parte do que é feito presencialmente pode ser  realizada a distância.

Os países estão todos voltando de forma escalonada. Não estão retornando com as aulas todos os dias, nos mesmos horários, mas sim duas vezes por semana: alguns estudantes em um dia, outros duas ou três vezes por semana. Os alunos vão continuar sendo expostos a essa dupla estratégia – presencial e a distância. Como é possível aproveitar, então, o tempo a distância para oferecer o primeiro contato com o conteúdo a fim de que o tempo presencial possa ser mais bem aproveitado com discussões, com vivências? Os estudos mostram que o aprendizado mais profundo é o que trabalha as “higher order skills”, por meio de vivências em que a criança crie o conteúdo e chegue a conclusões sozinha a partir de provocações. Isso veio para ficar.

E, em segundo lugar, temos as competências socioemocionais. Recentemente, saíram pelo menos quatro estudos que escutam professores e alunos, e 60% dos alunos dizem querer trabalhar competências socioemocionais quando voltarem para a escola, ao passo que 49% relataram estar pensando abandonar a escola. Precisamos lembrar que esses jovens não são um número, são pessoas que perderam parentes, que têm familiares que perderam o emprego, que estão sendo pressionados para gerar renda de alguma forma e que dizem desejar um vínculo com a escola que vai além do conhecimento. Por mais que isso já estivesse na BNCC, agora é que a coisa, de fato, virou uma demanda dos alunos.

O importante, nesse sentido, não é uma medição para ranquear ou para fazer uma lista. É fundamental medir para saber se a oportunidade de desenvolvimento está sendo garantida em política pública.

3 – O que você aconselharia às escolas que estão tendo dificuldades de avaliar as atividades on-line neste momento?

Para quem não conseguiu fazer nenhum tipo de avaliação durante o isolamento, a sugestão é que faça um diagnóstico assim que os alunos voltarem à escola. E esse diagnóstico precisa ser duplo, focando nas áreas do conhecimento, mas também nas competências socioemocionais. Sem elas, o aluno não aprende.

Assim como é preciso conhecer um aluno para enturmá-lo no início do ano letivo, entendendo o aprendizado dele do ano anterior, o que deve ser feito, agora, é algo parecido: realizar uma prova diagnóstica para conhecer o que cada um sabe, o que cada um aprendeu e o que falta aprender e poder ser feita uma enturmação que ajude os alunos a recuperar o conteúdo que perderam.

4 – Os estudantes estão sendo demandados em vários aspectos durante a pandemia e conseguir acompanhar as disciplinas, apenas, não tem sido mais a única prioridade, não é? Está sendo exigido deles desenvolver mais autonomia, mais capacidade de gerir seu tempo…

Exatamente! A prioridade e o pedido, agora, é desenvolver competências socioemocionais. E não só os alunos que estão tendo desafios. Todas as pessoas estão sendo testadas em sua resiliência, em sua capacidade de fazer coisas novas, de lidar com suas emoções, na capacidade de lidar com muitas tarefas em pouco tempo, de planejar… São novos papéis, para os quais não nos preparamos, sendo testados o tempo todo, o que exige muito autocontrole emocional.

Na medida em que estamos sendo testados, estamos também desenvolvendo tais competências. Os estudantes mais velhos, por exemplo, precisam ter mais autonomia, foco. Se estão estudando no iPad e lá eles têm acesso aos seus jogos, como eles se controlam?

Os países, em todo o mundo,  considerados os mais avançados no PISA já tinham se dado conta disso. Já estavam tirando conteúdo “decoreba” e colocando competências no currículo, que é o que os alunos precisam neste momento.

É preciso empatia também. Se quisermos voltar ao conteúdo de onde paramos como se nada tivesse acontecido, vamos perder os alunos. É necessário acolhê-los com empatia.

5 – O que o momento traz de oportunidade e de novas demandas em relação à formação de professores?

Uma oportunidade é fazer melhor uso da tecnologia. Mais ou menos metade dos professores dizem que precisam aprender a trabalhar melhor com a tecnologia, segundo dados da OCDE –, então, sem dúvida é algo em que precisamos focar, se o ensino será híbrido daqui para a frente.

Duas competências que os professores dizem ter menos também serão muito importantes atualmente: autoconfiança e capacidade de motivar os alunos. Imagine uma pessoa que já não tinha muita autoconfiança fazendo algo a que já estava acostumada, agora fazendo algo totalmente novo?

A ministra da Educação aqui da Itália fez um reconhecimento muito bacana aos professores que não cruzaram os braços. A fala dela, nas minhas palavras, foi no sentido de reconhecer que nem os pais nem os professores foram preparados para fazer o que tiveram de fazer durante a pandemia. Mas ela disse que é importante lembrar que não viramos pais nem professores da noite para o dia. Então, devemos completar a orientação que temos com a autoconfiança.

 

 

Gostou da entrevista com Tatiana Filgueiras? Uma das maneiras que uma professora do ensino médio encontrou de trabalhar o conteúdo de Filosofia e Sociologia durante a pandemia da Covid-19 e de desenvolver as competências socioemocionais ao mesmo tempo foi por meio de um projeto de podcast. Conheça o trabalho da professora e os principais resultados neste post.

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