Ana Luci Des Graviers fala sobre o futuro da educação frente a pandemia

Blog Ana Luci Des Graviers fala sobre o futuro da educação frente a pandemia

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Este post é uma contribuição de Ana Luci Des Graviers para o CER. Ana é Economista (UFBA) e Mestra em Administração (UFBA), além de Gestora Estadual do Projeto de Educação Empreendedora e Inovadora do Sebrae Bahia. 

A pandemia da Covid-19 e a sua repercussão impulsionaram a mudança de uma série de profissões. Aquele modo de fazer, que até então se apresentava como validado por um “savoir faire” com resultados efetivos no âmbito econômico, social e cultural, passou a ser questionado, pois não mais atendia a um modelo de viver que se tornou imperativo para dirimir os números de contaminação da pandemia.

Essa readequação foi necessária para atender à demanda da sociedade, que necessitava continuar trabalhando, estudando, comunicando-se, mas em um formato que não colocasse em risco a si ou aos demais e que, ao mesmo tempo, mantivesse a qualidade e a assertividade dos serviços, processos e produtos.

No que se refere à jornada do professor, o mundo VUCA – Volátil, Incerto, Complexo, Ambíguo –, preconizado anos antes da pandemia por alguns especialistas, já sinalizava uma tendência/necessidade de mudança no processo de aprendizagem, considerando a primordialidade de um mundo que exige cada vez mais competências, habilidades e valores dos estudantes que vão além do fortalecimento do conteúdo formal, como liderança, criatividade, familiaridade com as ferramentas digitais e planejamento para resolução de problemas complexos.

Assim, a pandemia da Covid-19 fortaleceu a necessidade de mudança no setor de Educação de forma muito mais intensa, complexa e imediata, uma vez que todas as instituições de ensino (ensino básico e superior), a partir de março de 2020, foram fechadas para evitar a contaminação.

Dentro desse contexto, no qual professores e estudantes necessitam proteger-se da disseminação do novo coronavírus, tornou-se imprescindível que os profissionais de Educação tivessem que adaptar suas aulas, na sua maioria expositivas e presenciais, em aulas remotas que pudessem incluir a participação dos estudantes, ao mesmo tempo conseguir engajá-los o suficiente para que eles permanecessem em estado de atenção e também permitir o processo de ensino-aprendizagem.

Com essa realidade posta, os educadores tiveram de buscar formação que os instrumentalizasse para o novo panorama: utilizar as redes sociais para contribuir com o processo de aprendizagem, desenvolver aulas criativas no ambiente virtual, conhecer e trabalhar com as principais ferramentas digitais, encontrar novas possibilidades para solicitar as entregas dos alunos em um ambiente até então não muito bem explorado e paralelamente desenvolver competências socioemocionais que os fortalecessem para continuar estudando mesmo em um momento complexo como o de pandemia.

Esse processo de adaptação à nova realidade foi diferente para os educadores dos ensinos básico e superior. 

Em geral, os professores do ensino superior tiveram suporte técnico das suas instituições de ensino, com a implantação de plataforma específica para transmissão de aulas em formato remoto e/ou EAD, apoio para a elaboração das aulas e a maturidade dos estudantes que, na sua maioria, já estavam familiarizados com as ferramentas digitais.

Em relação aos professores do ensino básico, sobretudo do ensino público, a situação foi mais complexa. Dentre as dificuldades elencadas em pesquisas, estão a falta de um ambiente adequado para trabalhar, visto que tiveram de transformar a residência em estúdios de aulas, a falta de formação para trabalhar com o ensino remoto e até mesmo a falta de contato com os estudantes, o que caracterizou bem a desigualdade entre aqueles que estudam em instituições privadas e os que estudam em instituições públicas. 

Na pesquisa apresentada pelo Instituto Península (2020) sobre “Sentimento dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus”, 88% dos professores nunca tinham realizado aulas em ambientes virtuais antes da pandemia, e 70% deles tiveram que mudar totalmente a sua rotina para adaptar-se ao novo contexto.

Entre os primeiros meses da pandemia em 2020, muitas instituições (inclusive o Sebrae) e as Secretarias de Educação começaram a disponibilizar programas de formação online gratuita aos docentes, nas temáticas de ferramentas digitais para transmissão de aulas, o que possibilitou a democratização do tema para os educadores. 

Portanto, os desafios do professor para tornar o ensino remoto foram muitos. Para além da necessidade de formação, muitos se deparam com os obstáculos a serem superados pelos estudantes, sobretudo de escolas públicas; a falta de serviço de internet compatível com o tempo de aulas; o dispositivo eletrônico compartilhado com outras pessoas da casa (smartphone, computador, tablet ou notebook) ou a falta dele; os pais de estudantes que perderam o emprego por conta da pandemia, o que pressionou os filhos a apoiá-los em algum tipo de atividade para a geração de renda; e a luta das famílias em tentar apoiar seus filhos na jornada de ensino-aprendizagem, já que a sala de aula se mudou para dentro de casa.

Apesar de uma trajetória complexa de mudanças no processo de ensino durante a pandemia e as diferenças sociais que ficaram evidenciadas principalmente na participação dos estudantes na sala de aula, os professores, pelo que a pesquisa do Instituto Península (2020) assinala, em relação a esse período, deixarão o seu legado, como a importância das ferramentas tecnológicas no processo de ensino-aprendizagem, a valorização da carreira docente pela sociedade e o fortalecimento do vínculo entre as escolas e os familiares para o melhor desenvolvimento da performance do estudante.

Muitos estudos evidenciam que esse processo de aceleração do uso da tecnologia trouxe uma perspectiva de democratização da Educação, fazendo com que muitas pessoas, em especial  aquelas em locais mais longínquos, tenham acesso ao conteúdo e possam fazer sua formação sem empecilhos de deslocamento. Cabe agora a ampliação do serviço de internet de qualidade, bem como o acesso aos dispositivos móveis (tablets, smartphones e notebooks) que permitam essa interação.

Quanto aos professores, a jornada tem sido intensa, mas não menos exitosa. Estamos em outubro de 2021, e muitas fases da pandemia foram vencidas: o primeiro momento de surpresa e desconhecimento de como seriam realizadas as aulas, o segundo momento de formação e desenvolvimento de aulas 100% online, o terceiro momento de aulas híbridas e estamos avançando em muitos estados brasileiros para o retorno gradativo ao formato 100% presencial.

Se analisarmos o contexto em que já nos encontrávamos de avanço exponencial da tecnologia (antes da pandemia) e o processo de ensino-aprendizagem no Brasil,  percebemos alguns pontos que deveriam ser mais bem refletidos pelos gestores educacionais para que os estudantes pudessem vivenciar uma educação que os preparasse para as exigências do mundo real. Assim, a pandemia pode ter sido um fator que acelerou o processo de forma frenética e que não nos permitiu uma preparação prévia. 

O certo é que nada será como antes, e os objetos de aprendizagens selecionados e utilizados durante a pandemia, o aprendizado das ferramentas digitais e o olhar para o futuro certamente deverão permear esse novo formato presencial de ensino e poderão possibilitar um ensino-aprendizado muito mais engajado à realidade/necessidade de formação do estudante.

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