Competências socioemocionais no ensino público: conheça o case do Colégio Estadual Chico Anysio (RJ)

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Formar alunos protagonistas de sua vida, com habilidade de autogestão, pensamento crítico, senso de pertencimento à escola e à comunidade em que estão inseridos. Com essa proposta, o Colégio Estadual Chico Anysio, em Andaraí (RJ), é prova de que, com incentivo para a formação de professores e mudança da cultura escolar, o desenvolvimento de competências socioemocionais no ensino público pode obter sucesso.

Fundado em 2012, o Colégio Estadual Chico Anysio (Ceca) tem, desde seu início, a proposta de oferecer educação integral a alunos de ensino médio. Um ano após abrir as portas, a escola contou com a parceria do Instituto Ayrton Senna. Eles investiram na formação de professores e na construção do programa de educação integral.

A parceria chegou a render, em 2016, uma pontuação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) acima de escolas com o mesmo nível socioeconômico e superior, inclusive, à nota média das escolas nacionais mais “ricas”, segundo o Instituto Ayrton Senna. Menos intensa nos dias atuais, a continuidade do trabalho fica por conta majoritariamente da direção e dos professores. E, claro, do protagonismo dos quase 350 alunos.

Entenda a proposta do colégio e como criaram caminhos para  o desenvolvimento de competências socioemocionais no ensino  por meio do próprio currículo escolar.

Professores: peças-chave para o desenvolvimento das competências socioemocionais no ensino público

Com a parceria com o Instituto Ayrton Senna, os professores passaram por capacitação, que ajudou a mudar a mentalidade e consequentemente a cultura da instituição. Nesse período, eles receberam uma gratificação para se dedicarem por 30 horas semanais à escola, em vez das 16 horas previstas oficialmente.

As horas de estudo e a preparação contribuíram para construir uma equipe coesa e engajada, mas “nem tudo são flores”. Cláudia conta dos desafios em manter um time de educadores engajados na proposta, principalmente depois que a formação passou a ser feita por EAD. “Um projeto de transformação dá trabalho, te tira da zona de conforto. É um trabalho hercúleo de convencimento do professor, pois ele é quem está na ponta e vai trabalhar e desenvolver competências socioemocionais no ensino público. É preciso, antes de tudo, desenvolver essas competências no professor”, reforça a diretora Cláudia Sosinho.

Educação integral para o desenvolvimento das competências socioemocionais no ensino público

Além da preparação dos professores, a proposta do Ceca é trabalhar a educação integral. Isso inclui as disciplinas previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e  quatro disciplinas que fazem parte do que chamam de Núcleo Articulador: Projeto de Vida, Projeto de Intervenção de Pesquisa, Estudos Orientados e Empreendedorismo. “O Núcleo Articulador é o grande diferencial da nossa escola, pois ele potencializa o desenvolvimento de competências”, explica a diretora Cláudia, que defende a ideia de que a educação integral vai muito além do ensino em tempo estendido.

Entenda como funciona cada uma das disciplinas

Projeto de Vida (PV):

Pensado para ser realizado de forma complementar ao longo dos três anos do ensino médio. O Projeto de Vida trabalha o autoconhecimento e a autoconfiança dos jovens. Primeiramente, o foco é a identidade dos estudantes, que passam a entender quem são eles, suas experiências de vida e seus desejos. No segundo ano, eles são instigados a pensar seu papel no mundo e nas formas como podem interferir positivamente na sociedade. Ao final, o mercado de trabalho é o objeto de estudo, e os alunos têm a oportunidade de refletir sobre possibilidades de carreira e atuação profissional.

Estudos Orientados (EO):

Com um programa totalmente aberto e flexível, essa a disciplina nada mais é que um tempo “livre” para que os estudantes desenvolvam projetos e trabalhos da forma como quiserem. O professor está presente para acompanhar e orientar, cabendo ao aluno desenvolver capacidade de gestão do tempo e tarefas, contribuindo para o amadurecimento desse jovem. “O processo de aprendizagem não está só na mão do professor, é do aluno também. Eles chegam à escola muitos passivos, com a ideia de que a responsabilidade é ou do aluno ou do professor. É um processo conjunto”, enfatiza Cláudia.

Empreendedorismo:

Desde 2017, a disciplina de Empreendedorismo é ofertada pelo Sebrae por intermédio do Programa Nacional de Educação Empreendedora (PNEE). Ele também oferece capacitação aos professores para ensinar empreendedorismo em sala de aula. Segundo Cláudia, a filosofia da instituição está alinhada aos valores e à visão da escola. “Entendemos que o empreendedorismo não é só abrir negócio, é preparar o aluno para ser um empreendedor em sua vida, a partir da reflexão do que ele pode fazer por ele mesmo. E para isso ele tem que ter uma formação como cidadão, cultural e emocional, além de técnica”, detalha a diretora.

Projeto de Intervenção e Pesquisa (PIP): assim como na disciplina de PV, os PIPs são realizados de forma crescente durante o ensino médio. Nos três anos, a estrutura é a mesma: alunos percorrem seis etapas até sua conclusão – mobilização, iniciativa, planejamento, execução, apropriação de resultados e avaliação. A diferença é que, no primeiro ano, as intervenções são feitas na própria escola, nos anos seguintes, na comunidade.

Serviço à escola e à comunidade

A disciplina de PIP faz parte da estratégia de ensino baseado em serviço, também utilizada como ferramenta para trabalhar as competências socioemocionais no ensino público. Dentre as iniciativas já realizadas, Cláudia destaca a construção de um bicicletário para a escola, a construção de uma sala de jogos e a reforma de uma sala com tatames.

Mas um das maiores conquistas certamente foi o projeto Hemoteca, idealizado pela professora Renata Melo, em 2015, e premiado. O projeto foi realizado com alunos do segundo ano, na época, e fez tanto sucesso que acabou se tornando um evento fixo no calendário escolar. Todo ano, os alunos se mobilizam a fim de conseguir doações de sangue para o banco do Hemorio, com quem a escola agora mantém parceria. No início, a ideia era obter doadores da comunidade, mas aos poucos os jovens perceberam que a sensibilização deveria ocorrer também dentro do colégio, com os funcionários e os professores, além do ambiente familiar.

A diretora Cláudia reforça a diferença que as competências socioemocionais têm na formação dos alunos. “Eles chegam de um jeito e passam por um processo muito nítido de crescimento, reconhecem a força que têm, conseguem intervir na escola, e o processo de aquisição do conhecimento é mais fácil. Eles aprendem a estudar, a se planejarem”, diz.

Desenvolver as competências socioemocionais no ensino público ou privado é uma das premissas para a construção de uma nova educação, alinhada às necessidades do mercado de trabalho em constante transformação e aos desafios da nossa sociedade como um todo. Elas também são muito importantes para a educação empreendedora, uma vez que preparam o jovem para tirar ideias do papel e colocar em prática os próprios projetos profissionais e de vida. Para continuar entendendo mais do assunto, confira a entrevista inspiradora que o diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos, deu ao CER.

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