Diversidade na Educação: como uma escola pública em MG coloca em prática a lei do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira

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Desde janeiro de 2003, a diversidade na Educação tem um grande aliado no Brasil. A Lei nº 10.639, de 9 de janeiro desse ano, que institui a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e estabelece as diretrizes para isso. No entanto, 17 anos depois, escolas ainda têm dificuldade de colocá-la em prática de forma a contribuir efetivamente para o combate ao preconceito e para garantir mais diversidade na Educação, de fato.

Em Belo Horizonte, uma escola municipal tem implementado ações nesse sentido e alcançado resultados animadores. Da inclusão da Capoeira como atividade extracurricular à Valorização da Beleza Negra, passando por cotas para autores negros nas novas aquisições para a biblioteca, o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira na Escola Municipal Francisca Alves (EMFAL), em Belo Horizonte, não é tratado apenas como um componente curricular, mas como um tema que perpassa todas as disciplinas e atividades. Conheça um pouco mais das ações de diversidade na Educação da escola e inspire-se para fazer da sua instituição de ensino um ambiente mais plural.

Diversidade na Educação e luta antirracista: ações transversais

Localizada em uma região de periferia de Belo Horizonte, com 48 vilas e comunidades, a Escola Municipal Francisca Alves tem como público os estudantes da própria vizinhança, com um total de 70% de jovens que se autodeclaram negros, de acordo com pesquisa realizada pela própria instituição. Segundo a vice-diretora, Rosane Viana, a escola é procurada por sua reputação em relação ao alto índice de aprovação dos estudantes e também pela possibilidade de que os jovens negros possam ter novas perspectivas de futuro. Isso porque a pauta antirracista é um pilar estruturante de todas as ações realizadas no âmbito escolar, promovendo a diversidade na Educação como um todo. Conheça algumas delas a seguir:

Conteúdo disciplinar

Nas aulas de História e Geografia, dar a perspectiva correta sobre a história da colonização do Brasil e aprofundar os conhecimentos sobre cultura afro-brasileira são duas grandes preocupações da escola.

Nas aulas de Geografia, o continente africano ganha destaque. Em História, uma dessas ações é a construção de um Infográfico, isto é, espécie de linha do tempo que trabalha a história dos negros desde a Revolução Industrial até os dias de hoje, trazendo grandes expoentes culturais como exemplo, como Clara Nunes, Machado de Assis, dentre outros.

Literatura e cultura plural

A fim de que os estudantes continuem tendo referências negras e que haja mais representatividade entre os autores lidos, outro esforço empregado pela escola diz respeito à seleção dos títulos da biblioteca. Para toda compra feita, uma parcela tem de ser, obrigatoriamente, de obras escritas por autores negros, além dos best-sellers, clássicos da literatura e material didático.

Afora isso, um clube chamado Leitores Vorazes apresenta aos estudantes, no intervalo das aulas, trechos dos livros que estão lendo, incentivando a leitura entre todos esses jovens.

Outra iniciativa nesse sentido é a Mostra Cultural, que trata desde temas como a Gastronomia Africana a grandes inventores, artistas e políticos negros do continente.

Trilhas e partilhas

Uma das ações de destaque na promoção da diversidade na Educação na EMFAL é a roda de conversas Trilhas e Partilhas. Em que mulheres negras de referência em suas áreas são convidadas a compartilhar sua trajetória de vida e profissional com os estudantes. A ideia é que eles possam se identificar na história dessas mulheres. Trazendo mais representatividade para determinadas profissões e caminhos profissionais que não são vistos como possíveis para os jovens negros, por conta do racismo estrutural e institucional no país.

Dentre as convidadas que já estiverem presentes, vereadoras, engenheiras, professoras universitárias, cientistas, estudantes acadêmicas e diversos outros perfis de mulheres compareceram à escola para trocar experiências com os estudantes de todas as séries – 12 turmas no total –, que também participam com intervenções e perguntas. A atividade, na realidade, começa antes da visita: os professores passam cerca de uma semana debatendo a profissão da convidada com os estudantes, conversando sobre os entraves e desafios e as possibilidades naquela área de atuação.

Desfile das Cacheadas

Enaltecer a mulher negra e celebrar as diferentes belezas é o objetivo do Desfile das Cacheadas, outra atividade que a EMFAL realiza dentro de sua estratégia de Diversidade na Educação.

Realizado sempre no dia 25 de julho, Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, o evento permite que as estudantes levem de casa uma troca de roupa e caprichem no estilo para exibir os cachos aos colegas, o que contribui para a sua autoestima.

Empodera Teen

Um grupo de psicólogas é contratado pela escola para trabalhar as questões de gênero, especialmente com as mulheres, no curso chamado Empodera Teen. Dentre os temas debatidos nas aulas, estão o Feminismo no Brasil e no Mundo, a História das Mulheres Negras, Direitos das Mulheres, Assédio.

Depois dessas aulas, as jovens formam o grupo Empoderadas da EMFAL, responsável por multiplicar o conhecimento e alcançar os demais estudantes. “De início, é um curso de empoderamento, mas que conversa bastante com a questão racial também”, explica a vice-diretora.

Representatividade entre a equipe de educadores

Entre os próprios educadores, a presença de profissionais negros contribui para a representatividade e, consequentemente, para a maior diversidade na Educação. “A minha presença, como mulher negra, periférica, lésbica, reverbera também nessa questão da representatividade”, comenta Rosane.

Os olhares e as perspectivas plurais na equipe contribuem para a criação de conteúdo e sugestão de atividades ainda mais diversos, gerando identificação nos estudantes.

Aulas de Capoeira

No contraturno, os estudantes que precisam ficar na escola têm a oportunidade de se inscrever nas aulas de Capoeira, com um mestre parceiro da instituição. As aulas são concorridas, conta Rosane, e fazem parte da estratégia de Educação Integral. Aulas em parceria com um clube regional, Festival de Capoeira, aulas noturnas são algumas das ações que envolvem a manifestação cultural.

Festa Junina e ancestralidade

Até a Festa Junina ganhou nova roupagem na EMFAL. No último ano, um dos trabalhos bastante elogiados foi a exploração da cultura africana e das manifestações culturais que tanto influenciam a cultura brasileira na hora de planejar o evento, o que impactou nas músicas, nas danças e até nas vestimentas. Tivemos uma surpresa enorme. Enviamos autorização aos familiares e recebemos quase 80% de retorno positivo”, explica a vice-diretora.

Segundo Rosane , a principal mudança que pode ser percebida na escola, após a implantação das ações, que começou em 2016, concerne à linguagem utilizada pelos estudantes.  As piadas, as brincadeiras e o vocabulário racista cessaram, conta ela, e há mais respeito e representatividade no ambiente escolar, o que reafirma a estratégia de Diversidade na Educação.

Ao ler sobre as ações realizadas na EMFAL, você pode estar se perguntando: mas qual é a relação entre Diversidade e Educação Empreendedora? Se ficou curioso, confira neste post.

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