Inclusão social por meio da educação e do empreendedorismo – entrevista com Simone Lozano, do Instituto Chefs Especiais

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Facilitar a autonomia e abrir oportunidades para jovens portadores de síndrome de Down. Com esses objetivos, o Instituto Chefs Especiais abriu as portas em 2006 e segue, até hoje, transformando a vida de centenas de jovens e de seus familiares por meio da gastronomia.

Gratuitamente, o Instituto oferece aulas e cursos de culinária e atendimento em restaurante, para que os jovens tenham uma opção profissional ou possam abrir, eles próprios, um negócio, como é o caso de alguns ex-alunos. Os participantes têm ainda a oportunidade de colocar em prática o que aprenderam no Instituto dentro do Café Chefs Especiais, uma cafeteria em ponto nobre de São Paulo (SP), cujo atendimento, literalmente especial, é um grande diferencial.

Conversamos com Simone Lozano, fundadora do Instituto Chefs Especiais e do Café, de mesmo nome, sobre o projeto e como esse tem levado mais oportunidades para jovens portadores de síndrome de Down. Confira a seguir.

Como surgiu a ideia dos Chefs Especiais?

Chefs Especiais surgiu em 2006 porque queria, de alguma forma, agradecer a vida bacana que tinha. Estamos sempre querendo mais e mais e nos esquecemos de agradecer tudo o que temos. Não tinha a intenção de chegar até aqui, nem a dimensão, tempos depois, do quanto esse trabalho fazia a diferença na vida das pessoas.

No início, o trabalho era para pessoas com deficiência em geral, e não especificamente para aquelas com essa síndrome. Após algumas aulas, entendi que as dificuldades eram bem diferentes e que deveria optar (e optei) pelas pessoas com deficiência intelectual e, em especial, pelas portadoras de síndrome de Down.

Quais são os cursos oferecidos no Instituto?

Atualmente, os cursos oferecidos são: Se Vira Aí Confeitaria, Se Vira Aí Culinária (ambos com o intuito de promover a autonomia dessas pessoas, no dia a dia, em seu lar, porém com linguajar técnico e preparo básico para a culinária em âmbito geral). Além desses, há o Down Cooking, o carro-chefe do Instituto e que existe desde 2006, no qual um chef é convidado para o workshop, com duração de 3 horas, funcionando como porta de entrada para os novos alunos e para aqueles com mais dificuldades.

Nesse projeto, não utilizamos material cortante ou fogo. Temos também o curso Preparatório para Atendimento de Salão (garçom e garçonete), isto é, o projeto Eu Posso, em que aqueles que passaram pelo curso de Atendimento de Salão são contratados para atuar nos eventos corporativos para os quais o Chefs Especiais é contratado. Oferecemos ainda cursos pontuais de panificação, bolos, horta, compotas, bolachas, doces, etc.

Quais os principais desafios que os jovens com síndrome de Down encontram no mercado de trabalho, atualmente, na sua opinião?

O maior desafio encontrado no mercado de trabalho é a adequação dos jovens e de suas famílias ao formato profissional. Hoje, encontrar um ponto de equilíbrio entre empresa e empregado e a família é bem difícil, já que as famílias atribuem a responsabilidade total à empresa na adequação profissional e as veem de forma assistencialista, o que não é o real. Já a empresa geralmente não está preparada para receber as pessoas com deficiência intelectual e muitas vezes acha que basta tê-la por lá. Há muito o que se adequar ainda de ambos os lados.

Você acredita que o empreendedorismo pode dar autonomia profissional a esses jovens?

Hoje em dia, no Instituto temos quatro funcionários com síndrome de Down que atuam de diversas formas. No Café eles recebem a oportunidade de exercer aquilo que aprenderam nos cursos da instituição. Acredito que autonomia é algo amplo, não é apenas para o mercado de trabalho, mas sim autonomia em casa em primeiro lugar, autonomia consigo mesmo. Depois vem o mundo do trabalho, informal, e o mercado de trabalho. Nosso foco é apenas autonomia. Mercado de trabalho é consequência, mas não nosso foco.

Empreender é bom para todos, não apenas para pessoas com deficiência. Em relação a esses, porém, é bem importante, pois nem todos têm condições de estar no mercado de trabalho, nem todas as famílias querem a responsabilidade de levar e buscar, por exemplo. Enfim, cada caso é um caso a ser levado em consideração.

No Instituto estimulamos as famílias a gerar sua renda. A maioria das mães larga sua vida para se dedicar aos filhos e lhes proporcionar o melhor. Uma forma de aumentar a renda é em dupla (mãe e filho), isto é, produzirem e venderem produtos feitos por eles, com segurança alimentar, responsabilidade e com lucro.

Hoje se fala muito de negócios enxutos, de alta performance. O seu negócio, ao contrário, tem as diferenças, a inclusão e o atendimento próximo e simpático como um diferencial. Como é empreender na contramão da tecnologia e da velocidade que o mundo atual exige?

Gostamos de tudo aquilo que não é tradicional. Nosso objetivo são pessoas. Atualmente, os relacionamentos são virtuais. No nosso Café, não servimos apenas café, mas principalmente servimos carinho, atenção, papo regado a risadas. Nossa comunicação é olho no olho. No nosso espaço, não espere que tudo seja rápido, que o café venha na temperatura labareda. É tudo no tempo da moçada porque é o espaço deles. Simplesmente resgatamos o essencial da vida, que é o toque, o se importar, o mostrar sentimentos.

Qual o principal impacto das aulas no Instituto e do trabalho do Café na vida de alunos, ex-alunos e familiares ao longo dos anos?

O principal impacto é mostrar que há luz no final do túnel, que essa moçada é capaz e o que precisam é apenas de oportunidade e empenho familiar. Os cursos mudam tudo na vida das famílias. O olhar, o acreditar, o ter comprometimento. As aulas de culinária ensinam a convivência em grupo, o tempo, a organização, a limpeza, a noção de quantificação, além da autonomia.

Vocês têm casos de ex-alunos que hoje são empreendedores?

Sim, temos o Matheus, que vende suas bolachinhas e que hoje já ficou muito conhecido. Temos a Luzia, que faz delícias na casa dos amigos, ganhando seu dinheiro, e tem até um livros de receitas publicado. A Danielle, que faz pão de mel como ninguém. Todos eles com lojinha própria, dentro do nosso Café.

Quer entender melhor qual a relação entre empreendedorismo e inclusão social? Confira neste post. 

 

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