Cidadania digital: porque essa competência é essencial na educação contemporânea

A origem da palavra cidadania vem do latim civitas, que significa cidade. Foi usada, primeiramente, na Grécia Antiga, para designar os direitos e os deveres dos cidadãos. E é assim, como sabemos, até hoje em todo o mundo. Com a evolução e a democratização da internet, o termo cidadania também passou a ser aplicado ao mundo virtual. É a chamada “cidadania digital”. 

A cidadania digital é a utilização da tecnologia de maneira responsável e adequada. Ela  leva em consideração, principalmente, a ética e a segurança na internet. Ela estende ao mundo virtual o mesmo cuidado e a mesma responsabilidade que devemos ter conosco e com os outros. 

O Brasil é o segundo país que mais comete crime cibernéticos. Por isso, falar de cidadania digital é ainda mais urgente. E o debate passa pela educação.

Educação e cidadania digital 

Os princípios da cidadania são ensinados nas famílias e nas escolas desde cedo: ao longo dos anos, os jovens aprendem o que é e o que não é moralmente aceitável e conveniente em uma sociedade, bem como são estimulados a refletir sobre as consequências de seus atos e de tudo aquilo que têm direito perante o governo e a Justiça. Em um cenário em que mais da metade da população mundial tem acesso à internet, as barreiras entre o mundo físico, e o mundo virtual se tornam mais invisíveis e fluidas. Não é mais possível pensar ética e moral apenas no mundo off-line. 

Quando olhamos para a realidade brasileira, os números são significativos: cerca de 86% das pessoas entre 9 e 17 anos no país usam a internet. Os dados foram divulgados pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, em setembro de 2019. Esse percentual, por exemplo, é maior até que a quantidade de brasileiros, no geral, conectados à internet, que chega a 70% da população

O avanço da tecnologia traz diversos impactos na sociedade e na educação. De acordo com Mike Ribble, autor do livro Educando a Criança Digital, e uma das referências no estudo da cidadania digital, “os alunos já estão usando essas tecnologias; agora,os líderes e os professores das escolas precisam fornecer recursos para usá-los adequadamente”. Mas como fazer para trabalhar cidadania digital em sala de aula?

7 formas de abordar a cidadania digital na escola

Buscando deixar mais claro o debate em torno da cidadania digital, apontamos a seguir sete aspectos que podem ser trabalhados em sala de aula visando desenvolver o senso crítico dos estudantes em relação ao autocuidado e à responsabilidade com o outro na rede. Veja a seguir: 

Autoimagem 

Assim como no mundo off-line, a imagem que passamos de nós mesmos é um de nossos bens maiores. É ela que vai nos abrir portas no decorrer da vida, dar credibilidade, ajudar a construir uma rede de amigos e contatos e permitir a criação de laços de amizade ou profissionais mais duradouros e fortes. Na internet, não é diferente. 

O que se fala ou deixa de falar tem até influenciado processos seletivos de muitas empresas. Os recrutadores estão de olho nas redes sociais para saber se os candidatos às vagas de emprego se encaixam na cultura da empresa. Em 2018, um caso ganhou repercussão na mídia e acabou tendo sérias consequências para um funcionário da empresa aérea Latam, por conta de um vídeo que ele próprio gravou e postou na internet. No material,  ele podia ser visto cometendo atitudes machistas com três mulheres durante a Copa do Mundo da Rússia, e a empresa aérea não pensou duas vezes antes de demiti-lo depois da proporção que o caso ganhou. 

Por isso, é importante ensinar a conscientização na escola para que os jovens se tornem pessoas mais bem preparadas e que pratiquem o respeito também na internet. Um exemplo foi dado pelo Centro de Educação Básica São José, que trabalhou a autoimagem e a autoestima das crianças de maneira lúdica, utilizando material simples para a construção da própria imagem, e com fotos da atividade finalizada.     

Respeito

O respeito é um dos aspectos mais importantes da cidadania digital. Muitas vezes, algumas pessoas acreditam que, por estarem  detrás da tela, podem ofender e prejudicar a imagem de alguém na internet. Mas isso, assim como na vida real, pode ter consequências, como processos na Justiça, reclusão de até quatro anos e pagamento de indenização.   

O chamado cyberbullying, violência praticada contra alguém pela internet, tem crescido no mundo todo, principalmente entre os jovens. De acordo com dados divulgados pela UNICEF em 2019, um terço dos jovens de 30 países relataram ser vítimas de bullying on-line, com um em cada cinco comentando ter saído da escola em razão de cyberbullying e violência. 

Os números evidenciam, ainda mais, a importância de se trabalhar na escola, desde as crianças, o respeito ao próximo no mundo virtual. 

Privacidade

As redes sociais e os aplicativos presentes, principalmente nos smartphones, coletam dados e informações pessoais durante a navegação. Além disso, antes mesmo de instalar os apps, o usuário deve aceitar as políticas de privacidade e os termos de condição de uso, o que muitas vezes acaba acontecendo sem que a pessoa leia atentamente as condições. Uma pesquisa realizada pelo Reclame Aqui mostra que 86% das pessoas não se preocupam com o uso de seus dados. 

Por isso, é importante estar atento ao que está entregando aos aplicativos e ter a consciência de possíveis consequências, como a divulgação de seus dados para outras empresas. Ou seja, é preciso que esse tipo de conteúdo seja explicado na sala de aula, de preferência por algum professor especializado no assunto, para que os jovens entendam e tenham consciência da importância dessas informações. 

Invadir a privacidade na internet também acarreta crime cibernético, passível de pena de um a quatro anos de reclusão. 

Direitos autorais

Direitos autorais também fazem parte das discussões relacionadas à cidadania digital. Atualmente, as pesquisas relativas a trabalhos acadêmicos são realizadas, em sua maioria, pela internet. De acordo com a pesquisa feita pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, 74% das crianças e dos adolescentes utilizam a internet para atividades escolares. É ensinado, porém, aos jovens como se deve pesquisar e usar as informações nos respectivos trabalhos?

A internet dispõe de vários artigos, blogs e livros gratuitos. Entretanto, é importante conscientizar os jovens que não basta apenas encontrar, copiar e colar a informação no trabalho. Eles precisam saber, desde cedo, o que são os direitos autorais e quais as consequências do plágio. 

A violação dos direitos autorais, como a utilização de imagens e/ou sons sem a devida autorização ou crédito, configura crime, podendo resultar em processo judicial. O mesmo vale para o plágio. A cópia de textos e/ou artigos acadêmicos, seja na íntegra, seja em partes, pode também acarretar consequências judiciais.  

Há algum tempo, professores colocam em prática técnicas, como a utilização de programas específicos (Plagius,  iThenticate, Plagiarism detect, etc.), para descobrir se os trabalhos contêm plágio. Entretanto, visando evitar que, no futuro, isso seja um problema, é importante discutir tal comportamento em sala de aula com as crianças e os adolescentes para que o mal seja cortado pela raiz. 

Compartilhamento

Se anteriormente era importante verificar a informação e checar a fonte antes de compartilhar uma notícia, imagine agora na era das fake news. As informações falsas  têm 70% mais chances de viralizar do que uma notícia verdadeira, segundo um estudo divulgado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), dos Estados Unidos.

Apesar de ser um tema muito presente atualmente, ainda não há previsão de punição para todo e qualquer tipo de propagação de notícias falsas. Dependendo do conteúdo divulgado, porém, isso pode ser considerado crime, como calúnia, difamação e danos morais. Além disso, em 2019, foi sancionada uma lei que pune de dois a oito anos de prisão quem divulgar notícias falsas com finalidade eleitoral.

E como combater isso em sala de aula? Nos Estados Unidos, existe uma organização sem fins lucrativos chamada News Literacy Project, que oferece ajuda e aulas às instituições para ensinar aos alunos como agir e no que acreditar na era digital.

No Brasil, mais precisamente em São Paulo, por meio do programa Imprensa Jovem, as escolas, utilizando os processos de educomunicação, trabalham o senso crítico e também a propagação de fake news. 

E não é apenas o compartilhamento de fakes news que geram consequências. É preciso ficar atento ao compartilhamento em outras situações, como a pornografia infantil. A pena para quem comete esse ato é de quatro a oito anos de prisão mais pagamento de multa. 

Proteção

Outro tema essencial dentro da cidadania digital é a proteção. Em um mundo onde os ataques maliciosos cibernéticos crescem, cada vez mais, de acordo com pesquisa divulgada pela Psafe, todo cuidado é pouco. Os jovens precisam ser conscientizados a não clicar em links duvidosos e a não navegar em qualquer site, dentre outras situações importantes que possam ter e enfrentar no que diz respeito à internet.

Por isso, é importante que as escolas tenham aulas de Informática, com professores capacitados em Tecnologia da Informação (TI) para explicarem, de forma, preferencialmente, mais leve e lúdica, esse tipo de conteúdo. 

Senhas

Seja no celular, seja no computador, a maioria dos acessos no meio digital é feita por meio de um login e de uma senha. Aconselha-se que a senha  seja elaborada de forma cuidadosa, ou melhor, com letras maiúsculas e minúsculas, números e caracteres especiais, quando for necessário. 

Em um primeiro momento, parece insignificante, mas é importante repassar aos alunos esses conhecimentos de segurança, uma vez que isso pode fazer toda a diferença contra um ataque de hackers, por exemplo.  

Para continuar se aprofundando no assunto, leia a entrevista na qual a publicitária Luiza Voll fala sobre cidadania digital e o uso saudável da internet.

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