Como tem sido a experiência de educadores e estudantes com as aulas on-line no ensino superior?

Do dia para a noite, tudo mudou. Preparadas ou não para a nova realidade, as instituições de ensino superior se viram obrigadas a suspender suas aulas presenciais por conta da pandemia do novo coronavírus, em meados de março, e assim seguem até que o distanciamento social seja suspenso. Para a instituição, pensar no acesso à tecnologia, no sistema de avaliação e até na revisão do valor das mensalidades se tornou um novo desafio. Já para o professor, é lidar com as metodologias mais adequadas à aprendizagem on-line, o planejamento de aulas e a interação com os estudantes – que frequentemente é mais intensa. No que diz respeito aos estudantes, a gestão do tempo e do espaço de trabalho tem sido demandada com mais intensidade.

Mas há muitas oportunidades também. Para falar acerca do período de aulas on-line sob diferentes perspectivas, entrevistamos um reitor, um professor e um estudante do ensino superior, todos os três do Centro Universitário UNA, em Belo Horizonte. Confira, nas entrevistas a seguir, como tem sido a experiência de cada um deles:

Rafael Ciccarini – reitor da UNA

A UNA já adotava o EAD ou o Ensino Híbrido em sua grade de cursos?

Antes de mais nada, é importante diferenciar o Ensino a Distância (EAD) da modalidade híbrida. O EAD, da forma como foi concebido e se tornou regra do Brasil, é um modelo de Ensino a Distância que tem uma série de características: existe um tutor, não há sincronia das aulas, etc. Infelizmente o EAD foi muito comoditizado. Ele se tornou um produto barato para um público mais interessado no que a formação superior tem a oferecer como ganho para o currículo do que para o processo de ensino e aprendizagem.

A modalidade híbrida é uma aposta do Grupo Anima e da UNA há mais tempo, entendendo que a digitalização da vida e os limites entre o on-line e o off-line são quebrados no cotidiano e vão se tornando cada vez mais tênues. A utilização de tecnologia no ensino presencial, dentro e fora da sala de aula, em aulas síncronas, com a utilização de plataforma, nos laboratórios, nas aulas de metodologias ativas, já é uma realidade.

Como foi o processo de adaptação da UNA às aulas totalmente on-line?

Quando ocorreu essa situação, não estávamos 100% preparados. Uma coisa é você construir um caminho de hibridização entendendo que a aprendizagem e o futuro são mais conectados com os tempos e com o modelo mental contemporâneo. A geração atual já cresce sob o paradigma do digital. Mas, quando aconteceu essa situação, já tínhamos um caminho andado e pudemos fazer essa virada  sem um trauma tão grande quanto o de outras instituições que não  faziam essa aposta havia mais tempo.

O momento demandou mais investimentos da instituição?

Sim, apesar de já ter havido investimentos nos últimos anos, foi preciso aumentar muito a escala, fazer treinamentos e adquirir tecnologia, além de  investimento em volume de licenças. Há uma impressão  nas pessoas de que haveria diminuição de custos nesse período, mas na realidade houve aumento.

Quais têm sido os maiores desafios para a instituição das aulas a distância?

Uma coisa é você viver um processo de maneira orgânica. Você vai apostando no híbrido, vai entendendo quais são as melhores formas de aprendizado – porque o nosso foco é sempre este: como é possível aprender mais e melhor. Outra coisa é conciliar as aulas com o fato de as pessoas não poderem sair de casa. Há todo um estresse mental, um medo. Então, além dos desafios inerentes à própria questão pedagógica e ao debate sobre a tecnologia no ensino e na aprendizagem, há aspectos sociais, históricos e políticos que tornam a situação mais tensa. Tudo isso, fora as questões domésticas: você ter que trabalhar, o professor ter que dar aula, o filho ter que estudar, você deve conciliar as tarefas de casa com os estudos.

Estamos sendo muito bem-sucedidos em meio a essas dificuldades, mas elas existem. Somos seres humanos, com medo, apreensões, esgotamento e precisamos lidar com tudo isso com maturidade e empatia.

E quais têm sido os aprendizados?

Aprendizados são muitos. Não voltaremos ao que a gente entendia como normal. Embora nosso normal já fosse híbrido, agora entendemos que há alguns tipos de conteúdos e metodologias que são melhores dos que os que estavam sendo utilizados. Tem alunos que brincam que não querem voltar para a aula presencial, outros já estão ansiosos para encontrar as pessoas. O convívio social também faz parte do processo de aprendizagem.

O território do ensino e da aprendizagem foi transformado, não tenho dúvidas. E o caminho é este mesmo. Agora temos que treinar as pessoas, dar as ferramentas, entender as especificidades. Uma coisa é você ter um discurso macro de que há uma digitalização do mundo; e o processo de educação, se pensado com qualidade, tem muito a ganhar com a tecnologia. Outra coisa é você tecer isso junto às peculiaridades e às especificidades de cada área de conhecimento, de cada disciplina, de cada tipo de professor.

Há também a questão socioeconômica: nem todos os alunos têm o mesmo nível de alfabetização digital e acesso à tecnologia. Mesmo os alunos com alto grau de familiaridade com a tecnologia podem não ter dinheiro para adquirir os equipamentos. Nós temos, inclusive, emprestado mais de 2 mil computadores e mais de 500 modems a eles a fim de que possam acompanhar as aulas.

Matheus Gravito – professor e coordenador dos cursos de Gestão e Negócios

Como foi a preparação da UNA para as aulas on-line?

A instituição criou uma página, a una.br/covid19, para centralizar toda as informações e a comunicação com os estudantes. Um ou dois dias antes de o isolamento social ser decretado, isto é, no dia 18 de março, os alunos já receberam um comunicado de que as aulas seriam on-line, e a Anima preparou um calendário, dentro do sistema do próprio aluno, com os links para todas as aulas on-line. Pensamos muito na usabilidade da ferramenta e na facilidade de uso tanto para o professor quanto para os alunos. Então, esse calendário ficou nativo no sistema para que os alunos pudessem entrar e acessar a programação de aulas.

Para as aulas, estamos usando o Zoom, que já era a ferramenta usada para os cursos híbridos que existiam na UNA, para as interações ao vivo. As aulas também são gravadas pelo Zoom, e o link é disponibilizado logo após a aula.

Quais outras ferramentas têm sido utilizadas neste período? 

O hotsite é a ferramenta para centralizar as informações em relação à COVID-19 e também para desmentir fake news sobre o assunto. Mas, na UNA, o aluno sempre teve acesso à Ulife, por meio da qual ele obtém o conteúdo disponibilizado pelo professor, as notas, até a chamada é feita por lá. É a ferramenta de gestão para aluno e professor.

Lá, é possível ter acesso a atividades, a fóruns de discussão, a questões abertas ou fechadas, a documentos. Tudo fica centralizado em um só lugar, em que o aluno tem acesso a toda a sua jornada acadêmica.

E como foi a adaptação dos professores para as aulas on-line?

Aqui, investe-se muito em treinamentos. Tivemos uma rodada inicial de treinamentos da Zoom porque, por mais que alguns já usassem, tínhamos de garantir que todos os professores dominassem bem a ferramenta. Foi feita uma semana de treinamento com a própria Zoom para isso. Também tivemos um treinamento maior focado no Ulife. Como tínhamos aulas presenciais, o Ulife era apenas um suporte.

Agora, tudo foi centralizado lá. A virada, então, foi de treinamentos intensos e de reuniões semanais com os professores para fazer alinhamentos, entender o contexto, como estavam ocorrendo as aulas.

O Grupo Anima também fez uma parceria com a Google. Atualmente, temos o Google For Education e podemos usar o Google Meet para videoconferências; assim, os alunos têm drive ilimitado e acesso a diversos cursos da Google.

Evoluímos demais nas últimas semanas.

O que mudou no planejamento e na condução das aulas?

Embora haja o conceito de o professor estar lá em um mesmo horário, como nas aulas presenciais, a metodologia é muito diferente. Sem o contato com o aluno, para saber se ele está aprendendo ou não, é diferente.

Os alunos comentam que estão sendo mais demandados durante as aulas on-line. Temos trabalhado muito com estudos de caso, que é uma metodologia mais viável.

O conceito de “sala de aula invertida” tem sido mais utilizado. Passar slides durante uma aula de 50 minutos ia gerar uma insatisfação muito grande. Temos passado filmes para o aluno assistir antes das aulas, exercícios, estudos dirigidos. No Zoom, temos o momento de tira-dúvidas também, que é bem organizado com as funções da plataforma.

Na Engenharia, os professores agora têm um board para facilitar a explicação de equações e os cálculos.

O que fica, de todas essas mudanças, quando vocês retornarem às aulas presenciais?

Já tínhamos ferramentas, mas nem todo mundo usava, por comodidade mesmo, já que contávamos com as aulas presenciais. Saindo dessa pandemia, com todos nós professores tendo sido “obrigados” a usar mais as ferramentas, agora o preconceito não existe mais. Isso é um ponto muito positivo.

Um segundo ponto: sempre trabalhamos com o conceito de palestras e, para realizá-las, tínhamos que encontrar espaço na agenda do palestrante, organizar viagens. Hoje em dia, temos organizado mais palestras virtuais, webinars. Acho que isso vai acontecer com mais frequência também; não ficaremos tão presos à agenda presencial.

 

Matheus Guilherme Gonçalves – estudante de Engenharia Civil do 8º período

Qual foi sua reação quando soube da necessidade de suspensão das aulas presenciais? 

Foi um fato novo para todo mundo: para os professores, para os alunos, para a instituição. Então, primeiro bate a ansiedade e o medo do novo. A maioria dos meus colegas de turma e dos professores e dos coordenadores entendeu que a mudança era por um bem maior. Entendemos que a saúde vinha em primeiro lugar, agora, e que seria necessário nos adaptarmos às mudanças.

No início, foi complicado pegar o ritmo e entender que esta aula seria diferente de uma aula presencial convencional, mas vejo que hoje a gente já ultrapassou essa barreira.

Vemos que existem 2, 3, 4, 5 pessoas estudando e trabalhando de casa e nem sempre a família possui essa quantidade de computadores. O acesso à tecnologia e a organização do espaço de estudo têm sido um desafio?

Por eu trabalhar com Informática, o uso das ferramentas foi mais tranquilo para mim e também pude ajudar mais colegas a se ambientarem em relação a isso. No que tange ao espaço de estudo, como moro com minha mãe, meu pai, minha irmã e meu avô, então para mim foi um pouco complicado, pois estudar na sala não é alternativa.

Meu avô, que tem Alzheimer, sempre pergunta o que eu estou fazendo; depois de cinco minutos, ele pergunta de novo. Acho que essa é a dificuldade de muita gente. Tem gente que tem filho, tem gente que tem idosos em casa, tem gente que tem obra ao lado de casa, tem gente que vai ficar sem luz em casa. Então, as dificuldades existem, mas, como disse, temos de entender que o momento é necessário.

Como tem sido a sua gestão do tempo de dedicação ao estudo e ao trabalho?

Aqui em casa fizemos um combinado: expliquei meus horários de trabalho e meus horários de estudo, para não ser interrompido o tempo todo. No trabalho, um desafio tem sido as mensagens fora do horário comercial. Fizemos um acordo em relação às horas de trabalho, mas, como estão em casa mesmo, acabam enviando mensagens antes e depois do expediente. Nos feriados, o mesmo se deu.

Eu tenho um celular corporativo e o meu pessoal, então isso ajuda bastante. E fico de olho nas notificações. Se é algo extremamente importante, eu respondo, claro.

No começo foi mais complicado, mas agora já consegui entender melhor os horários. É preciso, porém, ter muita disciplina. Quando a gente vai para a faculdade, a gente está dentro de sala para ter aula. Dentro de casa, a gente tem que se comportar como se estivesse dentro de sala de aula naquele período. Porque tudo à sua volta parece mais legal: a cama, a TV, a geladeira.

Você tem percebido um ganho nesses aspectos de autogestão?

Sim. Tudo isso para mim tem sido uma oportunidade de desenvolvimento, de me reinventar e de me adaptar melhor ao ambiente on-line. Inclusive, em alguns momentos, eu acho o on-line até melhor que o ambiente presencial. Primeiro, por não ter que lidar com o trânsito e pela economia com combustível e passagem. Além disso, posso acordar um pouco mais tarde e já estar disponível rapidamente após as aulas da noite.

Tenho aproveitado o tempo extra para estudar mais os conteúdos do semestre e também para rever conteúdos de semestres anteriores de que eventualmente preciso.

Qual era sua opinião sobre aulas on-line antes desta experiência?

Eu tinha um pouco de preconceito. Mas a verdade é que não estamos tendo aulas on-line pelo método convencional, que costumam ser aulas gravadas e repetidas em massa. No modelo que estamos vivenciando, você está ali com o professor e muitas vezes por até mais tempo. Podemos acionar o professor de forma particular para tirar dúvidas.

Minha visão mudou completamente, estou gostando bastante. Se pudesse continuar uma parte das matérias nesse modelo, eu ia gostar e acredito que ia agregar bastante às aulas.

Como você e seus colegas têm driblado a falta de interação presencial?

A minha turma em especial tem enfrentado isso muito bem com os grupos de WhatsApp. Tiramos dúvidas uns dos outros, ajudamos em momentos de dificuldade. Acho que o relacionamento está até melhor. O WhatsApp tem propiciado a criar outros laços.

Gostou de ler os relatos deles em relação às aulas on-line no ensino superior? Se sua instituição ainda não tem uma plataforma para as aulas, descubra 7 dicas de como escolher a melhor plataforma para as aulas EAD. 

 

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