Curador, facilitador, mediador? Entenda o novo papel do professor no século XXI

Estamos passando por um período bastante desafiador em razão de uma pandemia do novo coronavírus, a COVID-19. Todos os setores estão sendo impactados e com a educação, não é diferente. 

O número de estudantes fora da sala de aula já é superior ao de jovens que seguem indo à escola em todo o mundo, e a tendência é que esse número aumente ainda mais nos próximos dias. Por isso, a educação on-line tem sido uma grande aliada das instituições de ensino ao redor do planeta. Aquelas escolas que já haviam passado por uma transformação digital saem na frente, com infraestrutura e metodologia adaptadas para o ensino a distância (EAD). Outras instituições, no entanto, tentam fazer o melhor com o que podem e se têm aventurado nas  videochamadas, na produção de conteúdo para o YouTube, dentre outras alternativas. 

Pensando nisso, o CER preparou uma série de conteúdos especiais para o momento. Nossa intenção é sanar suas dúvidas e oferecer ferramentas visando dar o suporte necessário durante esse período de educação on-line. Esperamos que goste! Boa leitura!

“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. A fala é de Paulo Freire, educador e psicanalista brasileiro, sobre o papel do professor na educação. A favor de uma educação mais crítica e reflexiva, ele defendeu o desenvolvimento integral dos jovens e a emancipação como parte do processo de aprendizagem.

Freire não viveu em tempos de Twitter, TikTok e fake news, mas seu pensamento não poderia ser mais atual. Há décadas, o filósofo já estava alinhado com as discussões mais contemporâneas a respeito da atuação dos profissionais de educação. Quando a tecnologia entra em cena, o papel dos professores se torna ainda mais estratégico e focado na construção de conhecimento de forma horizontal. Mas como isso se dá na prática? Entenda, no artigo a seguir, por onde passa o novo papel do professor no século XXI.

Curadoria: informação é diferente de conhecimento

Nas teorias da Comunicação Social, um dos agentes mais importantes é o gatekeeper. O termo em inglês, que na realidade surgiu na Psicologia e foi aplicada ao Jornalismo, pode ser traduzido como “porteiro” ou aquele que guarda os portões. Nas redações, gatekeeper nada mais é que o editor. Ou seja, aquele que tem visão estratégica do contexto, da linha editorial do veículo e da função social das notícias, tornando-se capaz de filtrar o que deve e o que não deve ser publicado.

Essa figura é responsável também por ditar o “tom” das publicações, sempre com o compromisso de prestar um serviço público de informação de qualidade. O editor, portanto, deve ter conhecimento histórico, político, econômico e social, além de entendimento do perfil dos leitores para os quais aquela publicação de destina. A função é muito similar à dos curadores de arte. Aqueles que selecionam artistas e, dentre os acervos destes, selecionam as obras que devem compor determinadas mostras, criando uma linha lógica e visual para as exposições. Um trabalho extremamente meticuloso e complexo, muito parecido com o novo papel do professor no século XXI.

O educador sempre foi um curador de conteúdo. Mas essa necessidade se mostra ainda mais relevante nos tempos atuais, em que as informações estão por toda a parte. Voltando ao exemplo do jornalismo, quando as redes sociais surgiram e cada pessoa se tornou um produtor de conteúdo em potencial, muito se especulou sobre o fim do jornalismo. Anos depois, é possível perceber que o suporte, sim, sofreu transformações – o jornal impresso perdeu espaço para os veículos on-line, por exemplo – todavia o papel do gatekeeper é mais importante do que nunca, selecionando conteúdo confiável e de acordo com critérios técnicos. Muitos portais de notícia têm até cumprido a importante função de desmentir fake news com apuração jornalística e checagem de fatos.

O mesmo se dá na educação. No YouTube, os estudantes podem, por exemplo, fazer uma busca sobre coronavírus para entender como surgiu a doença COVID-19, o que ela faz com o nosso organismo, se existe cura e como é o tratamento. Lá, é possível encontrar desde informações de cientistas e médicos até vídeos caseiros de “palpiteiros”. Ou seja, pessoas que não têm formação ou propriedade para debater o tema. O novo papel do professor é exatamente este: ensinar os jovens a navegar no mar de informações, fornecendo as ferramentas para que distingam o que tem qualidade do que não tem e o que é informação confiável e o que não é. Para além disso, promover o debate em cima das informações coletadas e construir conhecimento.

 

Novas tecnologias digitais: quem ensina quem?

Para os educadores que estão na ativa há muitos anos, um dos dilemas mais frequentes surge quando as novas tecnologias entram em sala de aula: como ensinar os estudantes se, na realidade, eu é que preciso aprender a dominar os gadgets e os aplicativos? Novamente, o novo papel do professor tem a ver com construção de conhecimento, e não com transmissão de informações.

Claro, aprender a dominar a tecnologia é importante, ter curiosidade a respeito das tendências, dos lançamentos e das novas possibilidades no mercado. Mais que isso, porém, entender o que fazer com a tecnologia é que deve ser o caminho a ser seguido pelo educador, considerando esse novo papel do professor.

Nesse sentido, um dos temas que têm ganhado cada vez mais espaço nos debates acerca da educação do século XXI é a cidadania digital. Há quinze anos, o Orkut era a rede social do momento. A partir de 2010, o Facebook tomou esse posto e passou a ser praticamente onipresente nas telas de quem acessava a internet. Hoje em dia, o Instagram ainda tem importância enorme, mas o TikTok começa a despontar como o app do momento. Daqui a dois ou três anos, quem sabe qual será a rede social mais usada?

Por isso, mais do que ser capaz de usar a tecnologia, dominá-la com responsabilidade, ética e de forma construtiva deve ser a preocupação dos educadores. Podemos dizer que essa é uma excelente oportunidade para inverter papéis dentro da escola e pensar o ensino-aprendizagem de forma mais horizontal. Por que não pedir que os estudantes ensinem a você e também ensinem uns aos outros como usar o novo app? Colocar-se como facilitador de um debate sobre como lançar mão daquela ferramenta para a educação ou com o intuito de criar soluções para a sociedade? Afinal, aprender ensinando também é uma das tendências da educação contemporânea.

Novo papel do professor passa pela mediação

Outro aspecto que apresenta novas possibilidades em relação ao novo papel do professor em sala de aula é o crescimento das metodologias ativas e sua importância no ensino-aprendizagem. Embora não sejam novas, elas se tornaram imprescindíveis na educação na era tecnológica, em que o ‘aprender fazendo’ tem se mostrado uma das maneiras mais eficazes de construir conhecimento de fato.

E, se os alunos aprendem fazendo e errando, qual o novo papel do professor, então? Mediar, guiar caminhos e reafirmar o jovem. Sim, na educação ‘mãos na massa’,  as emoções têm função importantíssima: são elas que criam as condições ideais para que o aprendizado aconteça. Estimular liderança, autonomia, autoconfiança, dentre outras competências socioemocionais, passa a ser o novo papel do professor, que deixa os estudantes mais livres nas práticas e atua como mediador das experiências.

Para que tudo isso ocorra, o modelo de formação de educadores também deve mudar, adequando-se às exigências de estudantes, familiares, mercado de trabalho e comunidade escolar em relação ao novo papel do professor. José Morgado, professor, presidente do Conselho Científico da Associação Nacional de Professores (ANP) e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação (SPCE), defende que a formação de docentes deve ser polissêmica, horizontal e focada no desenvolvimento humano.

Quer ler mais sobre o tema? Confira neste post. 

 

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