Caminhos para a inovação educacional - Entrevista com Gustavo Borba

Não basta ter pessoas geniais para que a inovação aconteça. É preciso ter método, paixão, questionamento e novos modelos mentais. Essa é a ideia defendida por Gustavo Severo Borba, pós-doutor na Escola de Educação do Boston College. Gustavo é coautor do livro “A Escola do Futuro: O Que Querem (e Precisam) Alunos, Pais e Professores”, professor do Programa de Pós-Graduação em Design e líder do grupo de pesquisa Design Estratégico para a Inovação Cultural e Social na Unisinos, além de ter sido embaixador do TEDx no Brasil.

Nesta entrevista, conversamos com Gustavo sobre os elementos e os agentes da inovação educacional, além de iniciativas de destaque no Brasil e no mundo. Confira!

 Gustavo Borba

O que é preciso para que haja, de fato, inovação no ambiente educacional?

Do ponto de vista da pesquisa que estamos fazendo na Unisinos, temos que ter um ambiente adequado para o processo de aprendizagem, que é um ambiente que conecta metodologias ativas, currículos que são inovadores, uma infraestrutura que é pensada para construir conexão, com um design inovador, e tecnologia, que pode ser digital ou analógica. A principal tecnologia que eu vejo hoje é a possibilidade de poder riscar em todas as paredes, o tempo todo. É uma tecnologia que não demanda nada digital, que é fácil de construir. Mas sem metodologia adequada, mesmo esta simples tecnologia pode ser mal utilizada.

Quando esses elementos estão conectados, há um ambiente facilitador para a aprendizagem. E aí, se professores e alunos estão engajados nesse processo, temos uma atividade ou um modelo diferente.

As ferramentas educacionais, hoje, são um apoio. Existem muitas ferramentas de aprendizagem online, mas eu diria que o principal ponto são os jogos. É trabalhar o aprendizado pela gamificação para despertar ou para construir a partir do interesse mútuo de alunos e professores. Quando a gente gamifica uma atividade, ela fica mais interessante.

Quais são os desafios que as escolas brasileiras enfrentam hoje no processo de inovação educacional?

No Brasil existem várias iniciativas que se destacam; cada escola tem algum tipo de iniciativa que está conectada com seu DNA e que faz a diferença para aquela comunidade. O desafio hoje para o Brasil é a gente ter os atributos que uma boa escola precisa – escola integral, bilíngue, etc. –, mas que conectem a perspectiva das soft skills às das hard skills. Ou seja, que trabalham de forma conectada com a arte, com a música, com a literatura e não têm um ensino tão instrumental como a gente acaba vendo. As escolas estão mudando isso há mais tempo, e as universidades, agora, começam a se dar conta de que é preciso haver transformação que leva para um novo lugar.

As competências do século XXI, que são mais vinculadas à transversalidade e à nãolinearidade, formam pessoas de uma maneira distinta. São pessoas que estão preparadas para ir além da profissão, para interagir na comunidade. Esse é o principal: interagir e transformar a comunidade e fazer a diferença socialmente.

Como transformar a inovação em um processo contínuo nas escolas e nas instituições de ensino?

Existe um ponto central em todo o debate de educação hoje que é entender que o processo de inovação não está estritamente ligado à tecnologia.

Por exemplo, um currículo inovador que desenvolve as atividades de maneira sistêmica, não separando-as, ou trabalha por projeto – como muitas escolas já fazem –, é um tipo de inovação central para as instituições de ensino, para as escolas e até para as universidades.

Na minha opinião, o processo contínuo de inovação está ligado a práticas inovadoras que permitem que professores, alunos, pais e comunidade escolar (no ambiente escolar) e alunos (e em um ambiente mais abrangente da Universidade) possam encontrar conjuntamente processos e formas de construir a inovação.

Para mim, um dos pontos-chave é nós ouvirmos mais os alunos. O processo de educação tem que ser uma conversa. Vemos vários autores falando sobre a importância da conexão entre professor e aluno hoje em dia. Para isso, temos que abrir mão do espaço onde só o professor tem a informação e construir com o aluno o espaço da discussão e construção coletiva do conhecimento. Então, para ser inovador, o espaço da aula deve ser um espaço de conversa, de troca. Obviamente o professor entrega um conteúdo que é adequado àquela atividade, mas há uma troca entre alunos e entre alunos e professores.

O que você tem visto de mais inovador na educação no mundo? E, no Brasil, quais são as iniciativas de destaque na sua opinião?

É bastante difícil falar de uma coisa ou outra inovadora. Há alguns exemplos que já foram retratados pelo Caio Dib, por exemplo, que tem feito um trabalho muito importante e legal de buscar iniciativas inovadoras no Brasil. Tem a Green School, uma escola em Bali que recebe visitantes do mundo todo e trabalha com uma perspectiva de interação com o ambiente e relacionada à natureza, algo muito forte também atualmente.

Tem um projeto do pessoal do Coletivo Educação, que deu a volta ao mundo em 13 escolas. Existe também um relatório da OCDE que chama Teachers as Designers of Learning Environment, que apresenta algumas tendências de inovação em ambientes de ensino. Ele fala, por exemplo, da criatividade e da emoção, ou seja, da conexão da aprendizagem com o corpo. Fala também sobre experiential learning e a teoria que está por trás dessa metodologia, que vem lá do tempo do Dewey, um pragmático americano. Dois dos autores que mais tratam da questão do experiential learning hoje em dia são o David Kolb e a Alice Kolb, um casal bem reconhecido na área da psicologia da educação. O pensamento computacional é outro ponto muito forte em termos de inovação. O blended learning, que estamos vendo já e deve chegar com muito mais força nas escolas. A gamificação e a perspectiva de diferentes grupos culturais, de interação e de diversidade na educação.

O processo de aceleração das startups passa por inseri-las em um ecossistema de inovação, onde conseguirão financiamento, parcerias, mentoria, acesso à pesquisa, entre outras coisas. Aos poucos, as empresas também se atentam para a importância de estarem inseridas em um ecossistema e trabalharem como hubs.

E as escolas, como elas podem se beneficiar de um ecossistema de inovação? Quais são, na sua opinião, os agentes que podem trabalhar em parceria com as escolas para acelerar a inovação e a transformação dos modelos de educação nelas?

As startups de educação são bastante relevantes e temos também os ecossistemas, que são uma forma cada vez mais interessante de se construir inovação. É necessário que as escolas construam bancos de trocas entre professores da própria escola e entre escolas, espaços de convívio e espaços de troca porque, geralmente, as principais inovações estão bem próximas de nós. Esse é um ponto importante e tem que haver uma mudança nesse sentido, na conexão das escolas.

Em todos os espaços e no espaço escolar, a qualificação depende da gestão e das metodologias que os professores utilizam. O espaço é relevante, mas ele funciona como um conector entre o projeto da instituição, a metodologia do professor e os alunos. E os alunos têm que construir coletivamente a atividade de sala de aula. Isso para mim é fundamental. Estou acabando de ler agora um livro de 2017 do casal que comentei, os Kolbs. Esse livro fala sobre a ideia da aprendizagem a partir da experiência e se chama “The Experiential Educator”. No livro, os autores aplicam toda os aspectos da aprendizagem experiencial ao professor. Eles colocam que o papel do professor se transforma através do tempo e que é preciso compreender isso para mudar, de alguma forma, a atividade em sala de aula.

Então temos elementos centrais nesse livro que apontam que a inovação está, basicamente, conectada à interação entre o professor e o aluno e a um espaço qualificado para construir inovação. Obviamente, para isso acontecer, tem que haver gestão. Assim, teríamos um processo de inovação nas escolas.

Assista ao TEDx em que Gustavo Borba fala mais sobre inovação e educação:

Para continuar lendo mais sobre o assunto, entenda como colocar a inovação em prática, mensurando o nível de inovação em sua instituição escolar, com a ferramenta gratuita APEI-50.

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