Hackeando a educação tradicional – entrevista com Dale Stephens

Ele já figurou entre a lista dos jovens mais influentes pela Forbes, mas abandonou a escola quando ainda era criança, aos 12 anos, e investiu no que chama de self-directed learning, ou aprendizado autodidata. A insatisfação com o sistema tradicional o fez fundar, ainda adolescente, o UnCollege, proposta alternativa para o ensino superior nos Estados Unidos, que, em uma tradução livre, significa algo como Desuniversidade.

Em 2016, Dale vendeu a UnCollege e desde então se dedica ao Year On, programa que mescla viagens e experiências interculturais com programas de coaching, o que Dale considera uma das formas mais eficazes de aprendizado. Conversamos com ele sobre o sistema tradicional de ensino, o aprendizado autodidata e o papel do professor nas instituições de ensino em mudança. Confira a entrevista a seguir:

Você abandonou a escola muito novo para estudar sozinho, em casa. O que havia de errado com a escola tradicional?

Minha maior questão com as escolas tradicionais é que elas são feitas para a maioria. Os sistemas públicos são feitos para funcionar para a média das pessoas. No caso do sistema de saúde, por exemplo, isso é ótimo. Mas o mesmo não vale para as escolas e para a forma como aprendemos. Temos pensamentos, sentimentos e ideias, e o que funciona para um não necessariamente funciona para outro.

Além disso, há a discussão em torno de para qual fim realmente devemos educar as pessoas. Estamos passando por um período de crescimento acelerado; não víamos algo assim desde a Revolução Industrial, provavelmente. O desafio ao se pensar um modelo único é que, em relação a muitas pessoas, o que faz com que elas aprendem e desenvolvam competências é a possibilidade de trilharem os próprios caminhos de aprendizado.

Mas aqui no Brasil, por exemplo, somente nos ensinos fundamental e médio, temos mais de 56 milhões de alunos. Ou seja, é necessário que haja um sistema que atenda à massa. Você acredita que o caminho, então, seja mesclar o ensino nas escolas com o aprendizado autodidata?

Quando você trabalha com coaching, um dos desafios é atender às necessidades da pessoa de acordo com o momento de vida em que ela se encontra. Da mesma forma, é preciso atender ao sistema no momento em que ele está. Antes de tudo, é preciso mudar a mentalidade dos professores e a forma como eles interagem com os alunos, e também modificar a mentalidade dos próprios alunos, o que dá muito trabalho. Isso vai fazer com que os alunos sejam capazes de pensar de forma mais criativa, de ser mais independentes, de tomar decisões por eles mesmos, de ser ambiciosos, de acreditarem que, se eu tenho uma ideia, posso executá-la e não tem problema se ela não funcionar. Ao criar esses valores e essas crenças, é possível aplicá-los em modelos diferentes de aprendizado e de trabalho.

Você acredita que qualquer pessoa possa se tornar um autodidata?

Acredito que todos possam ser, mas não acredito que todos queiram ser autodidatas.

Quando eu olho para trás e reflito sobre a forma como eu pensava quando tinha 19, 20 anos, eu constato que achava que todos deveriam ser como eu. Agora, reconheço que existem caminhos diferentes e nem todo mundo quer ser autodidata. Por isso é importante ter um sistema em que as pessoas confiem, ter opções, para que elas não sintam que estão sendo forçadas.

O autodidatismo e as metodologias como Sala de Aula Invertida estão mudando muito o papel dos professores em sala de aula. Como você acredita que o professor do século XXI deve ser?

Professores devem aprender a ser coaches. Como já têm acesso ao conteúdo, os estudantes estarão em momentos diferentes de aprendizado. E é preciso que os professores atendam às necessidades de cada estudante nessa fase distinta. Para ser honesto, creio que os bons professores sempre foram coaches e nunca simplesmente se apresentaram na sala de aula para ditar o que o livro diz. Então não acredito que a definição do que é um bom ensino muda muito. Mas, sim, que todos devem tentar alcançar esse patamar.

Não sei exatamente como é a atuação dos professores no Brasil, mas certamente nos Estados Unidos não é uma profissão muito respeitada ou tão bem remunerada como as outras profissões. Se você olhar para os países que têm bom desempenho e desenvolvem estudantes criativos, curiosos e engajados, todos eles têm algo em comum: eles remuneram os professores muito bem. Tem que começar por aí! Leva tempo para se tornar um bom professor e um bom coach.

O que você acredita que as universidades podem aprender com a experiência do UnCollege/YearOn?

Acredito que as universidades já estejam mudando e dando mais opções aos alunos. Na economia, por exemplo, a concorrência inspira mudança. E tenho visto que as universidades estão mais atentas a isso. Elas precisam se apresentar de forma mais prática, já que os estudantes têm demandado isso. Existe a história de que as pessoas vão à Universidade para se tornarem cidadãos melhores. Sim, claro. Mas a vasta maioria das pessoas procura o ensino superior para conseguir um emprego melhor, salários mais altos. As universidades estão começando a perceber isso. Há 3 anos, pela primeira vez nos Estados Unidos, as matrículas nas universidades particulares decresceram e isso foi um alerta.  Mas tenho ficado impressionado com o quanto o ensino superior está disposto a mudar. No final das contas, porém,é uma questão econômica. Mesmo as universidades públicas dependem das matrículas, o que significa que elas estão mais atentas ao que os estudantes querem. Há pontos positivos e negativos nisso, mas o ponto positivo é que elas estão sendo forçadas a prover soluções mais alinhadas ao que os estudantes desejam.

Você se interessou pela proposta de educação livre de Dale Stephens? Conheça mais sobre a dinâmica do Year On, criado por ele.

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