Itinerários Formativos: desenvolvimento de competências e aprendizado prático – entrevista com Thelmy Rezende

Os Itinerários Formativos são uma das novidades mais animadoras do novo ensino médio. Também é um dos aspectos mais desafiadores. Como estruturar um bom Itinerário? Quais eixos ofertar? Como preparar os professores para ensinar Empreendedorismo, Processos Criativos, Investigação Científica e Mediação e Intervenção Sociocultural?
Para tirar algumas dessas dúvidas, conversamos com a pedagoga e analista do Sebrae, Thelmy Rezende. Confira!

1. Qual é a função que os Itinerários Formativos cumprem dentro da proposta do novo ensino médio?

O que a legislação pretende, agora, é dar um sentido ao processo educativo que permita melhor e maior articulação entre teoria e prática. Aliás, essa é uma questão que, dentro da história da Educação brasileira, é percebida há muito tempo e não conseguimos resolver de forma efetiva. Quando é proposto um currículo com uma carga horária destinada às áreas de Conhecimento e suas Tecnologias e outro campo destinado aos Itinerários Formativos, a ideia é que, por meio desses Itinerários que têm alguns eixos estruturantes – dentre eles, o Empreendedorismo –, se consiga trazer à prática aqueles conteúdos trabalhados nas áreas de Conhecimento no currículo. Dar um sentido prático e de aprofundamento.
Quando os Itinerários formativos se propõem a fazer esse aprofundamento, eles trazem um significado para a vida e para o cotidiano do estudante, seja em relação à resolução de problemas de ordem pessoal, seja de ordem coletiva – da comunidade, da escola, da família –, e também para construir o próprio Projeto de Vida.
A norma legal está dando ênfase bastante interessante ao Projeto de Vida, justamente por isso.

2. Como os Projetos de Vida contribuem para o desenvolvimento de competências?

Existem dimensões de competências: as mais voltadas ao conhecimento em si, as competências mais voltadas ao saber fazer e as competências mais voltadas ao saber interagir com o outro. É interessante analisar essa questão das competências fazendo uma associação com os pilares da Educação: saber fazer, saber aprender, saber ser e saber conviver. Porque, quando nós agimos, mobilizamos uma série de aprendizagens de ordem emocional, afetiva, prática, e de conhecimento construído historicamente pela humanidade. Assim, ao nos depararmos com uma situação-problema ou temos que dar respostas a algo, mobilizaremos todos esses conhecimentos e também empenharemos todo o aspecto do “ser” – como sentimos, como percebemos.
Por isso, ao falarmos em competências, não tem como falar que é apenas um tipo de competência, mas todas aquelas áreas a fim de que você possa agir de forma equilibrada.

3. Qual o ponto de partida e o caminho para as escolas criarem bons Itinerários?

A gente tem aí uma missão muito desafiadora para as escolas. Porque a Educação perpassa pela mediação feita pelo trabalho dos professores.
Por mais que a gente tenha um desenvolvimento da tecnologia, da informação e da comunicação bem avançado, e que acaba mediando os processos de aprendizagem, sabemos que a aprendizagem perpassa a presença do professor. Tem algumas coisas que o meio digital não consegue suprir, isto é, a parte socioemocional da relação.
A presença do professor é fundamental na mediação do conhecimento. E ceo que percebemos é uma lacuna na formação de professores em relação a essas competências – as socioemocionais e também as empreendedoras.
Se formos buscar nos currículos de Formação de Professores ou de Formação de Especialistas em Educação, vamos ver que existe essa carência. O professor é ensinado a ministrar a aula, aprende algumas técnicas de ensino-aprendizagem, mas o próprio Projeto de Vida do professor e seu projeto pedagógico são pouco trabalhados nesse processo formativo. E, se a gente não consegue trabalhar isso em nós mesmos – nosso crescimento e desenvolvimento –, como é que vamos trabalhar com o outro?
Então, nós precisamos aprender a aprender, para poder ensinar os estudantes a aprenderem a aprender. Há uma necessidade muito grande de engajamento das instituições que estão formando profissionais e se mobilizando nesse processo de formação.
Nesse ponto, nós, do Sebrae, estamos contribuindo com esse processo, ao nos colocarmos à disposição das Secretarias de Educação para trabalhar essas competências socioemocionais que integram as competências empreendedoras, que já trabalhamos com o nosso público de empresários. Nosso papel é o de colaborar nesse processo. Mas as instituições de educação devem assumir o protagonismo, no que diz respeito ao desenvolvimento de competências com maior ênfase nos cursos de Formação de Professores.

4. O que os estudantes devem levar em consideração na hora de escolher os Itinerários?

Essa é uma questão interessante, pois tudo isso é novidade para eles. É natural que, no momento em que há uma novidade, eles se sintam inseguros. Para eles, tudo o que é apresentado parece importante em um primeiro momento.
Eu vejo que talvez os estudantes não tenham grandes opções de escolha porque as escolas não são obrigadas a oferecer todos os Itinerários, ou o aprofundamento em todas as áreas de Conhecimento. Até porque elas terão dificuldade em fazer isso. Então, elas deverão escolher até duas áreas de Conhecimento para se aprofundar, obrigatoriamente.
Assim, será difícil oferecer muitos conteúdos eletivos aos estudantes. A escola, sozinha, não conseguirá fazer isso, terá de firmar parcerias. Mas digamos que ela consiga fazer isso. Como os estudantes podem fazer essa escolha?
Eles devem estar muito ligados a seus Projetos de Vida, ou seja, conteúdo que será trabalhado em todos os anos do ensino médio. O que ele está pensando em termos de objetivos de vida e de carreira, como ele planeja isso? Com base nisso, é que ele poderá fazer as escolhas de aprendizagem que vão agregar valor ao seus objetivos e às suas prioridades de vida.

5. Como a inclusão do eixo de Empreendedorismo aproxima a Educação brasileira da Educação do século XXI?

Vou falar um pouco da minha experiência como estudante, educadora e professora de futuros educadores. Na formação, como vemos poucas oportunidades de desenvolver competências empreendedoras, acabamos tendo um olhar muito limitado da profissão ou da área de Conhecimento na qual escolhemos nos aprofundar. Eu, por exemplo, me graduei em Pedagogia. Minha perspectiva em termos de trabalho era me tornar professora. Não deixa de ser verdade, mas o pedagogo pode ser muitas outras coisas. Não é trabalhado com os pedagogos, por exemplo, a possibilidade de eles se tornarem empreendedores em educação.
Isso se aplica a todos os campos de formação e a todas as licenciaturas. As instituições de ensino superior normalmente formam os licenciados para ser professores, como se o campo de trabalho estivesse fechado para eles. Mas, na verdade, existem inúmeras possibilidades de aplicar aquele conhecimento em muitas outras coisas. E o Empreendedorismo dá, exatamente, esta possibilidade: “pensar fora da caixa”. O céu é o limite.
Gostou da entrevista? Um dos aspectos desafiadores apontados pela especialista do Sebrae é a formação de professores para o Ensino Baseado em Competências (EBC). Sabia que o Instituto Reúna tem uma série de materiais gratuitos com esse foco? Leia mais sobre o assunto.

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