Educação na Era Pós-Digital

Como educar, quando a tecnologia não é mais novidade?

Responda rápido: qual foi a primeira tecnologia que você usou em sala de aula? Como a maioria dos professores, é bem provável que tenha vindo em mente o dia em que você incluiu um tablet nas dinâmicas da aula ou, se já leciona há algumas décadas, quando criou um projeto interdisciplinar em que os alunos usariam o tão famoso Laboratório de Informática. Mas a história das tecnologias na educação é bem mais antiga.

De fato, cadernos, lápis e canetas são tecnologias em si. Mas, com a democratização do acesso à internet e aos dispositivos digitais, intensificada a partir da década de 1990, vemo-nos, atualmente, a poucos cliques de distância de informações sobre qualquer parte do mundo, das mais simples às mais complexas.

A circulação veloz e intensa de informações faz com que horizontes sejam expandidos, e barreiras físicas e geográficas, superadas. A comunicação com qualquer parte do mundo também se torna mais fácil, uma vez que os assistentes de tradução virtuais conseguem entregar, em segundos, textos inteiros traduzidos para praticamente todos os idiomas falados ao redor da Terra.

Com isso, somos capazes de pedir ajuda, informação ou até mesmo negociar com pessoas de qualquer lugar. Também conseguimos encomendar mercadorias de outros continentes, graças às plataformas de comércio eletrônico e às mudanças nas operações financeiras e de logística, e assim teremos à nossa porta o produto desejado.

Vivemos, nas últimas décadas, a chamada Era da Informação, ou Era Digital, em que o acesso à informação – e não mais às técnicas de produção – passou a determinar as relações de poder na sociedade. No entanto, em um mundo em que a quantidade de smartphones já supera a quantidade de habitantes no planeta, informação deixa de ser um privilégio ou algo inacessível. Inauguramos o período conhecido como ‘Era Pós-Digital’, na qual começamos a perceber as transformações que a tecnologia provoca no nosso modo de viver, pensar, trabalhar e aprender.

A Era Pós-Digital é, basicamente, a realidade em que vivemos hoje, isto é, quando a presença da tecnologia digital é tão ampla e onipresente que, na maior parte do tempo, nem notamos que ela está lá.

Walter Longo – autor do livro Marketing e Comunicação na Era Pós-Digital

Uma das mudanças mais significativas, e que já pode ser vivenciada em maior ou menor grau em todo o mundo, é a tendência à automatização total das fábricas por meio de sistemas ciberfísicos, que combinam a operação das máquinas com processos digitais. Com a absorção de tarefas operacionais e a capacidade de cooperação entre elas e entre humanos, esses sistemas possibilitam a existência da Internet das Coisas (conhecida como IoT, sigla derivada do termo em inglês ‘Internet of Things’), com aparelhos ou sistemas inteiros inteligentes ou smart, capazes de se aperfeiçoarem a partir do acúmulo e da ‘leitura’ de dados relacionados aos padrões de uso e hábitos de vida humanos.

Mundo VUCA e a realidade do trabalho

Como era de esperar, todas essas mudanças também afetam o mundo do trabalho. Reuniões virtuais, serviço remoto e automatização de tarefas operacionais fazem, cada vez mais, parte do dia a dia de uma empresa contemporânea. Se você nunca ouviu falar sobre o mundo VUCA, saiba que esse conceito é essencial para compreender o trabalho, a realidade do emprego e as relações profissionais nos próximos anos.

VUCA é um acrônimo formado pelas palavras em inglês volatility, uncertainty, complexity e ambiguity, que significam volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade. O conceito vem sendo usado por especialistas para descrever esse cenário altamente complexo em que vivemos há pelo menos 10 anos.

O surgimento de outras tecnologias e inovações disruptivas acelera a velocidade com que as mudanças acontecem em todos os âmbitos da nossa vida, do ambiente empresarial às relações humanas. A quantidade de informações que circula na palma de nossas mãos diariamente dá espaço a infinitas possibilidades de escolha e atuação, fazendo com que as pessoas se sintam mais confusas e inseguras na hora de tomar decisão. Em um cenário em que tudo é questionável, as relações entre causa e efeito podem ter inúmeras interpretações.

Quando convivemos cotidianamente com o novo ambiente, quando esse assunto não é mais novidade. Quando as pessoas de qualquer classe social já têm aquilo que antes era status e privilégio de alguns. Quando isso pervasou toda a sociedade e faz parte do dia a dia das pessoas. A era pós-digital é quando precisamos desenvolver uma alma digital.

Walter Longo

A expressão Era Pós-Digital foi apresentada por Walter Longo em seu livro Marketing e Comunicação na Era Pós-Digital. Embora tenha sido usado originalmente no contexto empresarial, principalmente nas áreas de marketing e comunicação, o termo pós-digital representa uma leitura dos hábitos e comportamentos contemporâneos que têm impacto, inclusive, na educação e no empreendedorismo.

O autor afirma que seis aspectos principais definem a Era Pós-Digital:

Efêmero é tudo o que é passageiro, rápido, temporário ou transitório. O alto fluxo de informações da Era Pós-Digital faz com que tudo mude muito, o tempo todo. No contexto atual, não há mais lugar para superestruturas, planejamentos de longuíssimo prazo, equipes inchadas e processos burocráticos. Isso explica o sucesso de empresas ágeis e de startups, que têm grande capacidade de adaptação. Elas refletem exatamente as novas necessidades do mercado de trabalho, da comunicação e do empreendedorismo: planejamento que se adapta a cada mudança, além de processos e pessoas extremamente dinâmicos. Para isso, flexibilidade, senso crítico e capacidade de tomar decisões rapidamente são essenciais.

Comunicação entre máquinas e entre equipamentos. A mutualidade, descrita por Walter Longo, nada mais é do que a Internet das Coisas, ou seja, a conexão de aparelhos à internet e entre si. Nessa era, a web sai dos computadores e dos celulares e ganha outros dispositivos, permitindo gerenciar uma série de atividades do cotidiano. Dos smartphones aos relógios com controle de batimentos cardíacos e números de passos, dos assistentes virtuais às cidades inteligentes, a mutualidade permite a geração de inúmeros dados acerca do comportamento e das necessidades humanas, abrindo portas para a inovação e a resolução de problemas de forma nunca vista. Com a mutualidade, surgem também os conceitos de small e big data, que já se tornaram imprescindíveis em qualquer área de atuação.

Se antes a disseminação das informações se parecia com um jogo de boliche – em que a estratégia é mirar no maior número de pinos possível –, agora ela se parece mais com o jogo de pinball, ou seja, você lança a bola e não sabe qual caminho ela vai seguir dali em diante. Uma estratégia eficaz é aquela que se adapta constantemente de acordo com as reações e os interesses do público-alvo. Esse é o conceito de multiplicidade, uma das características que marcam a Era Pós-Digital.

Pessoas ‘estão’, e não mais ‘são’. Isso exige o uso de dados com contexto, visando à criação de uma estratégia direcionada para o momento de vida da pessoa. Embora a sincronicidade não seja algo novo, as tecnologias digitais nos permitem ter acesso a uma infinidade de novas informações que podem ajudar a elaborar estratégias mais relevantes.

Várias vozes e fontes de informação. Na atualidade, qualquer indivíduo com um smartphone nas mãos é um transmissor de conteúdo em potencial, criando um cenário de excesso de informação e baixa confiabilidade. Surge, nesse contexto, a importância dos profissionais nexialistas, que têm a capacidade de organizar o caos, orquestrando equipes e colegas especialistas. Os empreendedores geralmente têm esse perfil nexialista e, por isso, a Educação Empreendedora se consolida como uma alternativa a cidadãos preparados para o futuro do trabalho no século XXI. Em um mundo complexo, mais importante do que ter as respostas é saber onde buscá-las. (Associar. Com o material feito sobre nexialista).

Conexão emocional com o público. Quando o volume e a complexidade das informações forem muito elevados, criar tensão (seja por surpresa, seja por estranhamento, seja por disrupção) é uma das formas mais eficazes de estabelecer conexão com o público. No caso da educação, com os alunos.

Cidadania digital

E quais são os efeitos que as características apontadas acima produzem na nossa sociedade? Uma das novas necessidades que surgem na era pós-digital é o desenvolvimento da cidadania digital. O termo tem sido bastante utilizado e está relacionado à ética e à segurança na internet.

Na nossa vida offline, temos noções consensadas entre as pessoas do que é considerado ético e moral e o que não é, mesmo que não haja alguma restrição legal para determinada atitude. Espalhar mentiras sobre alguma pessoa? Não é bem visto. Desmarcar um compromisso de última hora? Também não. Levar um presente a um anfitrião em sua primeira visita ou a um bebê recém-nascido? Não é obrigatório, mas é uma gentileza praticada por muitos. São esses pequenos acordos que permitem uma convivência mais harmônica em sociedade.

Já reparou como temos um “choque de cultura” quando viajamos para um país estrangeiro? Isso acontece porque os acordos entre os habitantes de lá são diferentes dos nossos. É possível se sentir um peixe fora d’água durante atividades simples como cumprimentar uma pessoa ou dividir uma refeição.

O que acontece, então, quando o outro lugar não é um espaço físico, mas virtual? O mundo online também tem suas regras e acordos próprios e navegar bem através deles é um dos aspectos da cidadania digital. Pode compartilhar um conteúdo sem marcar o autor? Pode usar uma imagem sem autorização? Pode enviar uma notícia de fonte duvidosa? Pode mandar em um grupo um áudio que um amigo te mandou de forma privada? Pode criar um perfil anônimo para dizer abertamente suas opiniões sobre outras pessoas? Pode baixar um filme para assistir no computador ou baixar um livro em PDF?

Embora o acesso à internet não seja mais algo novo, sua democratização é relativamente recente e ainda estamos aprendendo o que é certo e o que é errado no ambiente virtual. A cidadania digital é, portanto, um tema de extrema relevância para o bom convívio social em tempos de e-commerce, e-learning, e-dating e tantas outras atividades que passaram a acontecer pela web.

E se engana quem pensa que aprender a etiqueta da internet é algo reservado somente às gerações que nasceram antes deste advento. Os nativos digitais também têm que desenvolver essa competência, por mais que tenham facilidade para navegar e aprender os recursos que a internet oferece.

Papel da educação na cidadania digital

Dominar as ferramentas digitais não significa, naturalmente, saber agir com ética e respeito. Por isso, a escola e a figura dos professores se tornam ainda mais estratégicas quando o assunto é cidadania digital. Cabe às referências mais experientes que os estudantes têm - educadores, familiares etc - apresentarem os limites do que é aceitável ou não, seja em relação à produção e ao consumo de conhecimento, ao lazer ou ao relacionamento online.

Levar essa discussão à sala de aula é uma forma de preparar os estudantes a distinguirem situações de ameaça virtual e também a saberem agir com respeito na rede, preservando sua segurança e intimidade e a de outras pessoas. Outro tema que vem sendo discutido também quando o assunto é o ambiente virtual e deve ser levado para os debates na escola é a saúde mental. Com o crescimento de ciberbullying, ciberativismo, cancelamentos (os linchamentos online) e fake news, como zelar pela troca de informações confiáveis e seguras? O debate amplo e democrático na escola é um dos caminhos para chegarmos a essas respostas.

Novas demandas na formação de professores

Alunos bem preparados para lidar com o consumo de informações requerem professores também bem capacitados. Afinal, na era pós-digital, a educação tem pela frente novos desafios. A Educação 5.0 se caracteriza como uma evolução do conceito anterior de Educação 4.0, muito marcada pela introdução da tecnologia no ambiente de aprendizado. Na Educação 5.0, justamente a que se tem na era pós-digital, as competências socioemocionais, ou softskills, têm papel essencial na educação, que busca trabalhar competências em vez de disciplinas.

Quando convivemos cotidianamente com o novo ambiente, quando esse assunto não é mais novidade. Quando as pessoas de qualquer classe social já têm aquilo que antes era status e privilégio de alguns. Quando isso pervasou toda a sociedade e faz parte do dia a dia das pessoas. A era pós-digital é quando precisamos desenvolver uma alma digital.

Walter Longo

Por isso, o professor Morgado defende que o momento pede uma revisão dos modelos de formação de professores, que ainda têm um caráter muito academicista, a partir da lógica disciplinar. “Nos tempos atuais, a cultura deu lugar à multicultura, o conhecimento disciplinar ao conhecimento polissêmico. Deixa-se de falar de física e matemática para se falar em linguagens matemáticas, por exemplo. E o conhecimento polissêmico se propaga horizontalmente”, explica Morgado.

Para ele, quatro caminhos são fundamentais para uma nova formação de professores na Educação 5.0. Vejamos:

Professor deve ser uma referência cultural:

professores bem preparados culturalmente são essenciais no contexto atual. Para isso, não tem segredo: o profissional deve investir em uma formação cultural sólida, contínua e diversa.

Professor deve ser uma referência moral:

saber reconhecer a escola como espaço de inclusão e respeito, tornando-se referência de valores e ética, é um dos desafios dos professores para o desenvolvimento integral e equilibrado de seus alunos. Assim, a formação humana, ética e emocional dos professores deve receber ainda mais atenção.

Professor deve ser uma referência pedagógica:

“Ninguém vai ao hospital dizer como o enfermeiro deve aplicar a injeção, mas querem ensinar ao professor como dar aula. Temos que nos fortalecer como referências pedagógicas”, diz José Morgado sobre a prática da profissão. Para ele, os cursos de formação devem ampliar a reflexão sobre a prática, oferecendo mais ferramentas e fundamentação teórica para a tomada de decisão por parte de professores e gestores.

Professor deve ser uma referência cosmopolita:

deixar de se orientar por valores locais e se tornar um sujeito global é a quarta capacidade que a nova formação de professores deve buscar desenvolver, incluindo a educação intercultural no currículo. O professor deve ser capaz de compreender a complexidade e as incertezas do mundo atual.

O que muda na gestão educacional?

Assim como o papel dos alunos e dos professores muda na atualidade, a atuação dos gestores educacionais tem grandes desafios na Era Pós-Digital. Miguel Thompson, diretor-geral do Instituto Singularidades, aponta para a necessidade de encarar a escola como um espaço de performances que, muitas vezes, podem ocorrer fora das quatro paredes das salas de aula. Para ele, o improviso é uma das competências que os novos gestores educacionais devem dominar. “Ele tem que imaginar, de maneira probabilística, as possibilidades de acontecimento quando os alunos começam a trabalhar fora de sala de aula, mais cenários do que diretrizes. O novo gestor trabalha com cenários. Cada vez mais, ele tem que prever as incertezas”, diz Miguel.

Segundo Miguel, o cenário de transformações profundas nos modelos de aprendizagem e nas relações nas instituições de ensino impõe novos desafios aos gestores da educação. Alguns deles são:

Capacidade de Síntese
Contexto e Relevância
Capacidade Imaginativa
Gestão Horizontal

Capacidade de Síntese

Trabalhar cada vez mais como um estrategista e menos em funções operacionais é um dos desafios postos para os gestores em uma realidade em que muitas das tarefas administrativas e burocráticas tendem a ser absorvidas pela tecnologia e automatizadas. Além disso, a tendência é que a educação se torne cada vez mais horizontal e colaborativa, com diferentes atores participando mais ativamente da melhoria da qualidade de ensino. Por isso, exige-se maior capacidade de síntese ou de orquestrar os envolvidos no processo educacional. “E essa síntese deve ser feita a partir de uma análise colaborativa para orientar a estratégia educacional”. Ou seja, o gestor deve atuar de forma a organizar e a transformar esses feedbacks em ações concretas e inovadoras.

Contexto e Relevância

Aproximar-se da realidade do jovem é outra necessidade para os gestores nos novos tempos. “Precisamos trazer o rigor acadêmico, porém com a cultura jovem”, afirma Miguel. Entender as novas tecnologias, a linguagem e a forma de pensar dos alunos vai dar ao gestor ferramentas para que ele proponha atividades que realmente façam sentido e gerem engajamento real dos estudantes.

Capacidade Imaginativa

Inovação se dá a partir da imaginação. O exercício do “e se”, muito comum no Design Thinking, por exemplo, é, para Miguel Thompson, fundamental para que a escola vislumbre novas possibilidades e expanda sua atuação. “A escola hoje ainda é pouco imaginativa. A imaginação é que leva ao movimento”, afirma ele, citando como exemplo o surgimento da cultura maker e das metodologias ativas.

Gestão Horizontal

Multidisciplinariedade, troca de experiências, colaboração, diversidade. Essa é a cara da educação do futuro. E o gestor educacional tem papel importante em garantir tudo isso, gerindo as diferentes vozes que passam a fazer parte do processo educacional. “Ele tem a função de criar um empreendimento humano e de promover a confluência das redes de experiências”, explica Miguel. Isso inclui manter relações mais horizontais com toda a comunidade escolar, incluindo os familiares, e romper as “desconexões” causadas pela cultura digital, como o narcisismo e o egocentrismo.

É possível perceber que a era pós-digital traz desafios para todos os agentes da educação, não é mesmo? Em termos de metodologias, as chamadas “metodologias ativas” já são consideradas uma resposta a esses desafios, representando expressiva mudança no paradigma das práticas educacionais, que, como vimos, se mantiveram as mesmas desde a Revolução Industrial. Para continuar se aprofundando no tema, entendendo exatamente quais são as metodologias ativas e como elas podem ajudar você a transformar a realidade da sua instituição de ensino, confira o Observatório especial que produzimos sobre o assunto.

Fazer um exame minucioso também nos fundamentos do Ensino Híbrido pode ser bastante proveitoso nessa missão. Por isso, confira o Observatório que preparamos sobre o tema. Duas leituras aprofundadas que vão contribuir para que você pense e repense a educação nos tempos atuais!

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