Ensino baseado em experiência

Por que a vivência– e não mais o conteúdo – é a estrela da educação no século XXI

Vamos falar sobre experiência?

Experiência é algo inerente ao ser humano. Ela existe nas relações familiares, de amizade, de trabalho e, quando é memorável, é responsável por memórias guardadas com carinho por toda a vida. Mas, quando vem acompanhada de um sentimento negativo, a experiência pode se transformar em verdadeiros traumas.

O que é uma experiência?

Uma experiência é qualquer situação que um indivíduo enfrenta, durante um período de tempo determinado, e deixa algum tipo de impressão. Para alguns especialistas, as experiências ocorrem quando estamos conscientes, ou seja, quando estamos acordados.

A experiência é o que diferencia a crença da confiança. A primeira é baseada na sugestão, enquanto a segunda, na vivência. O psiquiatra Carl Jung afirmava que era preciso desconfiar da sabedoria que não é fruto da reflexão e da maturidade obtida pelos próprios esforços.

Assim, as experiências podem ser vivências, memórias, momentos, sensações. Mas a ideia de pensar a experiência de forma estratégica para alcançar um objetivo de compra, por exemplo, é um pouco mais recente. No início do século XX, alguém já pensava em criar experiências encantadoras. Com uma mente brilhante e bastante à frente de seu tempo, Walt Disney criou uma filosofia de trabalho e atendimento que tem o objetivo de fazer as pessoas pararem para contemplar suas criações e quererem levar mais pessoas a vivenciar a mesma experiência. Até os dias de hoje, Walt Disney inspira marcas e empresas a desenhar modelos de atendimento ao cliente que sejam inesquecíveis.

O jeito Disney de encantar o cliente é baseado em quatro premissas: Segurança, Cortesia, Espetáculo e Eficiência. Juntos, esses aspectos são capazes de “criar felicidade” nos parques da Disney, deixando adultos e crianças completamente imersos em sons, cheiros, cores e, claro, contribuindo para movimentar bilhões de dólares todos os anos.

Prefiro divertir as pessoas na esperança de que aprendam a ensiná-las na esperança de que se divirtam.- Walt Disney

Alguns anos após a morte de Walt Disney, outro evento ia revolucionar a forma como pensamos e desenhamos nossas experiências: a criação da internet, em 1969. Com a popularização do acesso à Rede Mundial de Computadores, tem início a chamada “era da informação”.

Hoje, o que Disney imaginou tem até um nome: user experience. O termo, mais conhecido no Design e na Arquitetura da Informação em Website, é usado para definir o conjunto de técnicas que contribuem para a melhor interação do usuário com um produto; também vem sendo aplicado nos serviços e na educação. O Design de Experiência estuda e entende padrões na forma como as pessoas consomem – seja informações, seja imagens, seja produtos –, oferecendo caminhos para que as plataformas físicas ou virtuais possam ser navegadas por seus usuários de maneira mais intuitiva e prazerosa.

Da era industrial à era da informação

Também conhecida como era digital, a era da informação é caracterizada pelos avanços tecnológicos da Terceira Revolução Industrial e da criação do ciberespaço, isto é, espaço de expressão e comunicação humana mediado por computadores.

Ao contrário do período anterior, em que o domínio das técnicas de produção era determinante, na era digital o acesso à informação rege as relações de poder. Consequentemente, quem tem acesso à internet tem tudo. Com tantos dados, imagens, sons, vídeos circulando, era de se esperar que a forma como nós nos relacionamos com o mundo mudasse. Quem aí se lembra da palavra mais falada nos anos 1990 e 2000, a globalização? A internet quebrou barreiras físicas e geográficas, abrindo ao cidadão comum (ou pelo menos a uma parcela privilegiada da sociedade) as portas para um ‘admirável mundo novo’.

Esse tal mundo pós-digital

Avance algumas décadas e cá estamos. Redes sociais já não são mais novidade, mas sim ferramentas de comunicação interpessoal tão naturais quanto o telefone ou a comunicação oral. Câmeras de celulares, algo que, para os adolescentes dos anos 1990, parecia um sonho de ficção científica, têm qualidade profissional. A velocidade de streaming tem aumentado o consumo de vídeos exponencialmente. Em um mundo em que a quantidade de smartphones supera a quantidade de habitantes no planeta, informação deixa de ser um privilégio ou algo inacessível. A qualidade da informação e do conhecimento, sim, mas isso é tema para outro Observatório.

A Era Pós-Digital é, basicamente, a realidade em que vivemos hoje, na qual a presença da tecnologia digital é tão ampla e onipresente que, na maior parte do tempo, nem notamos que ela está lá.

Walter Longo– autor do livro Marketing e Comunicação na Era Pós-Digital, para a revista Galileu

Redes como o Tik Tok, Instagram, o Snapchat e o Pinterest deixam claro que não vale o quanto você sabe, mas o quanto você vive. Diariamente, milhões de fotos e vídeos são compartilhados nessas plataformas, com usuários postando detalhes de viagens a praias paradisíacas, festas e momentos divertidos com amigos ou as cores daquele prato especial – que nem precisa ser tão gostoso assim, desde que saia bem na foto!

O que dizer do Museu do Sorvete, presente em cidades como Miami, Nova York e São Francisco? O lugar foi completamente pensado para ser uma “experiência instagramável” (hipertexto ou pop up), com salas cor de rosa, piscina de granulados, jujubas gigantes e balanço de bananas. Isso sem falar nas diversas salas desenhadas para que os visitantes garantam milhares de cliques no melhor estilo tumblr. O espaço inspirou até mesmo o Museu Mais Doce do Mundo, experiência que já acontece em outros lugares do mundo e chegou ao Brasil com uma proposta semelhante de levar diversão e experiência a crianças e a adultos.

E, já que estamos falando de museu, você já ouviu algo sobre o museu DDR, em Berlim? Com um tema menos doce que os citados logo acima, ele também é uma ode à experiência. Isso porque DDR é a sigla da antiga Alemanha Oriental Socialista, que tem seus costumes e modo de vida representados no museu. Lá, dentre outras experiências superdivertidas, é possível entrar em um carro da época e dirigí-lo, participar de sessões de contação de história como em uma escola da Alemanha Oriental, escolher nas prateleiras de supermercados os produtos vendidos há décadas e até conhecer um apartamento da época, com programação retrô na TV e – pasmem – com vista interativa das janelas, que mostram as ruas, a iluminação pública e os carros exatamente como eram.

Experiência instagramável?

A expressão pode parecer brincadeira, mas proporcionar experiências instagramáveis é algo que marcas e empresas em todo mundo têm levado muito a sério. Na era das redes sociais, pouco adianta oferecer o melhor serviço e produtos de qualidade se a experiência do cliente não for memorável, digna de registro e post no Instagram.

Não é só na vida pessoal que as experiências ganharam tanta importância. No marketing, por exemplo, a experiência do cliente passou a receber atenção especial e investe-se muito para criar uma experiência positiva e encantadora, transformando simples clientes em verdadeiros embaixadores das marcas.

Mas e a educação? Como a era da experiência do mundo pós-digital transforma os processos de ensino e aprendizagem?

Aprendizagem por meio da experiência

Um dos precursores da ideia do aprendizado por meio da experiência e da escola como um espaço de valorização das vivências foi John Dewey. Segundo os autores Claudemir Galiani e Maria Cristina Gomes Machado, no artigo “As propostas educacionais de John Dewey para uma sociedade democrática”, são dele a ideia da escola como um laboratório da vida e das relações sociais.

Quem foi John Dewey?

Filósofo e pensador norte-americano, John Dewey (1859-1952) defendia a democracia e a liberdade de pensamento como ferramenta para o desenvolvimento emocional e intelectual das crianças. Dewey pertence à corrente filosófica conhecida como pragmatismo, que defende que o aprendizado é mais eficaz quando os alunos realizam tarefas associadas aos conteúdos.

[...] a educação escolar deveria conciliar o ‘aprender fazendo’ e o ‘aprender sentindo’, permitindo uma convivência pacífica entre as diferentes classes sociais.

Claudemir Galiani e Maria Cristina Gomes Machado sobre o pensamento de John Dewey

Dewey não só pensava a escola como um laboratório como criou, ele mesmo, um espaço nesses moldes, em que a experimentação deveria guiar o aprendizado. Criada em 1896, a Escola Elementar Universitária, também conhecida como Escola Laboratório, atendeu durante sete anos crianças entre 4 e 13 anos, colocando em prática as teorias de Dewey e buscando ressignificar a escola com base na experiência. Na Escola Laboratório, os alunos aprendiam da forma mais natural possível, com a tutoria de um professor que zelava para que o processo fosse ativo e consciente. Assim, o aluno estava no centro da própria jornada de aprendizagem e assimilava teorias e conteúdos valendo-se do enfrentamento de objetivos.

Para saber mais...

Na andragogia, Malcom Knowles é um dos principais autores que fala sobre a importância da experiência para o aprendizado de adultos. Para saber mais sobre o assunto, vale a pena ler as teorias e as publicações do pesquisador americano.

Experiências educativas no século XXI

Você deve estar pensando: mas se John Dewey já falava sobre experiências no início do século, por que elas são mais relevantes na educação atualmente? Lembra-se da era pós-digital, que mencionamos no início deste texto? Pois é nesse contexto que os alunos estão inseridos.

Os desafios da educação contemporânea passam por entender como lidar com o grande volume de informação que circula todos os dias na palma da mão dos estudantes, fazendo a curadoria de todo esse conteúdo e ensinando uma das habilidades mais importantes no século XXI: aprender a aprender, em vez de memorizar informações.

Junto disso, vem o desafio de prender a atenção dos jovens, quando o mundo lá fora ou o mundo virtual tem tanto a oferecer. É aí que entram as experiências. Além da capacidade de reforçar caminhos neurais e potencializar a apreensão de conteúdos, criar experiências memoráveis em sala de aula é um dos artifícios necessários para o engajamento dos estudantes, bem como para seu bom desempenho e desenvolvimento.

Mas como criar experiências memoráveis na educação?

Engana-se quem pensa que, para criar uma experiência memorável de aprendizado, é preciso ter um orçamento robusto, investimento em tecnologia, infraestrutura grandiosa ou muitas pessoas. Quando o assunto é vivência, voltar-se para o que há de mais simples e humano na educação é o segredo.

Além dos games citados acima, vamos apresentar, a seguir, algumas ferramentas para isso. Todas elas já são abordadas no portal do CER com frequência. Você pode aprofundar seus estudos sobre como aplicá-las navegando por aqui.

Viu só? Existem muitas formas de criar experiências memoráveis de aprendizado para seus alunos. A fim de que continue a se aprofundar no tema, nossa dica é mergulhar de cabeça no conteúdo sobre as metodologias ativas, que têm o ensino centrado no aluno como um dos focos principais.

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