A influência da desigualdade social e do gênero na escolha da profissão do futuro de crianças

Imagine uma minicidade inteiramente projetada para crianças. Neste lugar, os pequenos simulam as profissões que fariam a cidade funcionar, como piloto(a) de avião, cirurgião(ã), cabeleireiro(a), bombeiro(a), professor(a)… aprendendo sobre cada uma dessas funções e sua importância na sociedade enquanto brincam. Esse é o conceito do Kidzania, um parque de diversões lançado no México e presente, hoje, em 21 países, inclusive no Brasil. Ele é baseado na prática do chamado “edutainment”, metodologia de ensino que alia pedagogia e entretenimento a fim de promover o aprendizado de maneira mais engajada. Mas, além da diversão, o Kidzania tem muito a dizer sobre a escolha da profissão do futuro dessas crianças.

Ao longo de alguns anos, os funcionários do Kidzania observaram algo que parece óbvio: as crianças escolhiam as profissões que queriam seguir de acordo com típicos estereótipos de gênero. Assim, meninos preferiam ser pilotos, e meninas, comissárias de bordo. Meninos iam para a engenharia, e meninas, para os salões de beleza. Com base nessa percepção, a instituição reuniu dados de um ano de visitas da unidade de Londres e de três unidades do México com a intenção de realizar estudos sobre como gênero e desigualdade social afetam a escolha da futura profissão no que diz respeito a crianças de cada país.

Os resultados mostram como estereótipos persistem influenciando fortemente as profissões do futuro de crianças. A pesquisa também provoca reflexões sobre mobilidade social, visto que compara as escolhas de estudantes de escolas e regiões ricas com as de estudantes de escolas e regiões desprivilegiadas.

Neste artigo, conheça os principais achados sobre a escolha da profissão do futuro e as possíveis soluções defendidas pelo professor Ger Graus, diretor global de Educação do Kidzania. Ele abordou o assunto durante uma palestra ministrada na última edição do Bett Educar, maior evento de educação e tecnologia da América Latina, realizado em São Paulo.

Estereótipos influenciam a profissão do futuro desde muito cedo

Os dados de visitas no Reino Unido revelam o que já é, de certa forma, esperado: ainda hoje, meninos e meninas tendem a escolher a profissão do futuro com base em estereótipos de gênero.

Contudo, o resultado mais surpreendente nesse aspecto é o quão cedo essa influência começa: desde os quatro anos de idade, conforme constatou o estudo.

No geral, garotas costumam escolher profissões nas áreas de moda e beleza, produção de alimentos, atividades artísticas, vendas, hotelaria, enfermagem e medicina. A proporção vai de 1,9 a 18 vezes mais em comparação às escolhas dos meninos. Já eles preferem profissões como treinadores, policiais, engenheiros, técnicos, bombeiros, músicos, carteiros e escaladores. Na área da aviação, a diferença aparece de forma ainda mais intensa, uma vez que os meninos têm 60% a mais de chance de manifestar preferência pelo treinamento de piloto do que as meninas, e elas costumam escolher a função de comissárias de bordo 29% mais vezes do que eles.

A pesquisa do México mostrou que, nas três cidades estudadas, as garotas costumavam optar, no que concerne à profissão do futuro, por funções mais interativas e de contato com o público, ao passo que eles escolhiam mais funções do perfil oposto.

Garotos tendem a ser mais confiantes em si mesmos

A desigualdade de gênero reflete também na confiança que as crianças depositam em si mesmas para escolher a profissão do futuro. O estudo de Londres revelou que crianças do sexo masculino tendem a escolher as profissões do parque cujas tarefas são recomendadas para idade acima das delas. Já crianças do sexo feminino tendem a escolher tarefas de idade mais baixas que as delas. Para a instituição, tais escolhas revelam como os garotos têm mais confiança na sua capacidade em comparação com as meninas.

O interesse na profissão do futuro difere de acordo a classe social

Ao comparar as profissões escolhidas por crianças de regiões carentes (que possuem taxas mais baixas de renda, educação, emprego, saúde e habitação, e taxas mais altas de criminalidade) com as de regiões ricas, o estudo feito no México chegou ao resultado de que, no geral, as primeiras costumam se interessar por determinadas ocupações numa proporção 33% maior do que as demais. São trabalhos em fábrica, estádio, pizzaria, bar, lanchonete, clínica veterinária e carreiras relacionadas à pintura e às artes cênicas.

Já as crianças mais ricas tendem a escolher uma profissão do futuro relacionada ao Ministério Público, a correção de seguros, a museu de tesouros, a boutique de moda e cafeteria.

As crianças escolhem o que conhecem

Uma das grandes conclusões que o professor Ger Graus, diretor global de Educação do Kidzania, chegou com esses estudos é que as crianças fazem a opção tendo em vista o que conhecem. Tanto que, nos achados da pesquisa de Londres, se constatou que as futuras profissões mais estimadas por todas as crianças são aquelas que mais fazem parte de seu cotidiano. As crianças tendem a não se interessar muito por ocupações que fogem ao imaginário infantil e ao de sua faixa etária.

Esse aspecto permeia os demais resultados das pesquisas, pois, para o educador, meninos e meninas escolhem a futura profissão baseados em estereótipos de gênero porque veem uma sociedade configurada dessa maneira no seu dia a dia. Da mesma forma, crianças mais pobres escolhem os empregos com os quais mantêm contato mais próximo, isto é, a profissão de seus pais e familiares, enquanto as mais ricas escolhem profissões do futuro mais ligadas ao universo delas.

Por isso, durante o Bett Educar, o diretor falou sobre como é necessário que as crianças entrem em contato com o leque de opções que têm para seu futuro, porque elas não conseguem aspirar algo que não conhecem. Ele propôs duas medidas: a primeira é a confecção de um manual que mostre a elas a variedade de possibilidades disponíveis pelo mundo.

Outra solução é levar as crianças a conhecer adultos-exemplo, que enfatizem que a mobilidade social é possível. São pessoas semelhantes a essas crianças que trabalham com áreas menos comuns para o seu contexto, inspirando-as a almejar futuras profissões diferentes.

Como o ensino empreendedor pode ajudar a promover a mobilidade social

As pesquisas do Kidzania mostram como as desigualdades social e de gênero afetam as escolhas das crianças desde muito novas, de modo que os ciclos se repetem, e a sociedade dificilmente avança sozinha. Contudo, é possível estimular as crianças a perceber que podem ocupar espaços onde ainda existem poucos de seus iguais.

Confira também nosso post sobre como a Educação Empreendedora feminina pode combater a desigualdade (uma história na África Subsaariana).

leia também

7 formas de criar mais engajamento na educação infantil
continuar lendo
Educação 5.0 x 4.0 – entenda as diferenças entre os conceitos
continuar lendo
Conheça 4 iniciativas de Educação Empreendedora premiadas no Brasil
continuar lendo

Quer ficar sabendo de tudo antes? Assine a
newsletter e receba novidades no seu e-mail.

x
área restrita
Usuário
senha
×