Saúde mental, tecnologia e pandemia – Entrevista com Marisa Castanho

Muito se especula sobre os efeitos da tecnologia no aprendizado das crianças, em sua capacidade de concentração e socialização. Mas e quando a vida escolar inteira migra para as telas e é combinada com o turbilhão de sentimentos e desafios que uma pandemia traz? Para falar sobre o assunto, entrevistamos Marisa Irene Castanho, presidente do Conselho Nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia. Veja a conversa na íntegra a seguir.

Marisa Irene Castanho

Marisa Irene Castanho

Quais têm sido os principais desafios que o momento de pandemia da Covid-19 apresenta para escolas, estudantes e familiares? Como o isolamento social e as aulas a distância afetam cada um desses grupos, na sua opinião?

São inúmeros  os desafios que decorrem da inversão da posição da família em relação à escola, tendo de sair de uma atuação periférica para uma atuação central. No que diz respeito às famílias, quantas delas já vinham se preocupando e/ou mostravam disposição para acompanhar seus filhos na escola, com interesse e participação na vida escolar dos filhos? Essa é uma questão motivacional, de interesse, de entusiasmo pelo crescimento e  pela aprendizagem dos filhos, para a qual nem todas as famílias estavam preparadas, em especial para assumir esse lugar de centralidade no processo.

Quantas famílias conseguiram se organizar buscando dar conta de todas as incumbências que surgiram repentinamente em sua vida? Organização dos espaços na casa, com toda a família presente em tempo integral; organização das atividades de cada um; ter de conciliar as tarefas domésticas, com o cuidado dos filhos, as atividades profissionais em home office ou mesmo tendo de sair para trabalhar, sem poder contar com quem e onde deixar os filhos. Essas novas rotinas por certo geraram e ainda geram estresse que se prolonga pela extensão do período de isolamento social.

Ainda no que tange à família, quantas tinham ou têm acesso a recursos tecnológicos, internet, computadores, celulares para que as crianças e os jovens pudessem ingressar nas plataformas que passaram a ser implantadas pela escola visando à continuidade dos processos de ensino e aprendizagem dos conteúdos escolares?

Falando sobre as escolas, quantas delas tinham familiaridade com as tecnologias e já trabalhavam com elas no cotidiano escolar, com capacitação de professores para atuarem em sistemas híbridos de ensino? E, com a chegada da pandemia, quantas estão desenvolvendo programas de capacitação de professores para operarem sistemas de educação a distância?

Provavelmente poucas. Se considerarmos as redes públicas, com base em publicação da Folha de S.Paulo, no dia 14 de junho, no caderno Saúde, a pesquisa publicada revela falta de preparo das redes de ensino com ausência de capacitação de professores em 61% das escolas. E isso comprometerá o retorno às aulas.

Como as escolas vinham atuando na parceria escola-família, na consideração da importância de uma relação saudável entre essas duas instâncias em benefício do desenvolvimento e da aprendizagem das crianças e dos adolescentes? Em especial as famílias das classes mais baixas, que têm sido tradicionalmente consideradas como causa das dificuldades de aprendizagem e as crianças sendo tratadas de forma excludente?

Em relação às próprias crianças e aos adolescentes, consideradas as diferenças significativas em decorrência da faixa etária e do estrato social à qual pertencem, é preciso perguntar o quanto estão sendo atendidas nas suas necessidades de cuidados, atenção e acompanhamento nos seus processos de desenvolvimento e aprendizagem.

O quanto aos pais, de um lado, têm disponibilidade de estar apoiando os filhos nesse momento, em condições materiais e afetivas de suprir suas necessidades básicas para um bom desenvolvimento. Há riscos de dispersão da população jovem, em especial, cujas pesquisas já indicavam aumento de índices de abandono da escola após os 12-13 anos e nos últimos anos do ensino médio. Assim, cabe perguntar como as escolas estão se preparando para o retorno às aulas e para a volta da população escolar à rotina escolar.

Sem programas adequados voltados às crianças e aos jovens, no sentido de desenvolver o protagonismo infantil e juvenil neste momento de pandemia, parece difícil motivá-los a acompanhar aulas para as quais não veem sentido ou não têm recursos para tal. Se o lugar da criança e do jovem é na escola, quantos estão efetivamente envolvidos e sendo beneficiados pelas aulas ao vivo?

Essas são as inúmeras questões para as quais ainda não temos resposta, mas cujos efeitos poderão ser avaliados em médio e longo prazos, a depender da mobilização coletiva, da sociedade e dos governos (federal, estadual e municipal) na atenção à saúde da família, da escola, da infância e da adolescência.

Como as escolas podem cuidar da saúde mental de seus funcionários e também dos  estudantes?

As redes que integram a saúde e a educação vêm sendo efetivadas por inúmeras políticas, a exemplo do Programa Saúde na Escola (PSE), instituído por Decreto Presidencial nº 6.286, de 5 de dezembro de 2007, resultante do trabalho integrado entre o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação, na perspectiva de ampliar as ações específicas de saúde aos alunos, em especial os da rede pública, em todos os níveis, do Ensino Fundamental, Ensino Médio, Profissionalizante, Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Os funcionários e os professores deveriam ser incluídos nesses programas, pois é fundamental cuidar da saúde de quem cuida, e o professor tem sido abandonado e considerado mero cumpridor de decretos, na maioria dos casos.

Não há previsão de verba para a participação de profissionais da saúde, psicólogos, psicopedagogos nas equipes gestoras. Pouquíssimas prefeituras contam com a presença desses profissionais em equipes na rede de saúde que integra ações nas escolas.

É necessário corrigir urgentemente esse quadro, uma vez que, tradicionalmente, os problemas de saúde mental são tratados como problemas do indivíduo, e não como questões de saúde coletiva: é o aluno que tem distúrbios emocionais e comportamentais; é a família que é desestruturada; é o professor que caiu em depressão ou teve um surto em sala de aula e precisa ser afastado. É necessário implantar programas preventivos e sair da tendência ao encaminhamento individual, que leva à medicalização de problemas cuja raiz é social.

Quais são as oportunidades, a seu ver, da introdução de tecnologias digitais no aprendizado? E os desafios da educação mediada por telas?

A realidade atual veio para ficar. Não há como a escola continuar a ignorar os imensos benefícios da tecnologia a serviço da educação. Ocorreu uma aprendizagem apressada desses recursos para dar conta da demanda que se apresentou da noite para o dia com a necessidade de  fechamento das escolas. Até ontem, o professor tinha como inimigo da sala de aula o celular, com grande parte da população infantil e jovem usando inadequadamente esse recurso na sala de aula.

Com o retorno às aulas, espera-se que o professor tenha aprendido e tenha se capacitado para o uso adequado no ensino híbrido, por meio de  metodologias ativas.

Como pais, escola e estudantes podem encontrar equilíbrio, humanizando o aprendizado mediado pela tecnologia?

O que temos visto são as crianças e os jovens usando celulares, videogames, tablets como forma de isolamento, como maneira de criar uma realidade virtual em paralelo ao mundo virtual. Muitas vezes, para os pais, esses momentos são de alívio, pois a criança quieta no celular ou no tablet, não perturba o adulto, permitindo que ele faça suas coisas.

Muitos estudos vinham mostrando o uso da tecnologia como afastamento das relações sociais, familiares e do encontro entre as pessoas. Dessa forma, é necessário um novo aprendizado, o uso da tecnologia como aproximação, como fonte de diálogo, como busca de assuntos interessantes, como descoberta de novas possibilidades de comunicação e humanização do homem.

Embora a pandemia esteja acelerando o processo de uma educação mais mediada pela tecnologia, estamos caminhando para o ensino híbrido há alguns anos. Quais são alguns cuidados que as instituições de ensino devem levar em consideração ao inserir ainda mais tecnologia no dia a dia dos estudantes?

A escola deverá capacitar com seriedade o professor para o uso das tecnologias em sala de aula. Aquelas que já estavam implantando o ensino híbrido têm chances de ficar à frente no retorno às aulas. É necessário que o professor e a escola saiam de uma zona de conforto das aulas coladas em material pronto, e o professor seja um pesquisador junto ao seu aluno, descobrindo as informações e os conhecimentos que se produzem hoje de forma vertiginosa em qualquer área do conhecimento.

Para isso, o professor deve ter condições mais adequadas de trabalho, maior liberdade na organização dos conteúdos curriculares, participação em formação continuada, e a escola deve abandonar um fazer cotidiano cristalizado e se envolver no mundo dos conhecimentos que sirvam à compreensão da realidade complexa como ela é e prepare crianças e jovens para a vida.

Quer saber como três escolas mineiras estão se adaptando à realidade das aulas on-line durante a pandemia do novo coronavírus – Covid-19? Leia neste post. 

Para enriquecer ainda mais seu conhecimento, veja também a live que fizemos  sobre Ensino Híbrido no canal do CER

 

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