Código para uma nova educação - entrevista com Fernando Americano

Le Wagon é uma escola francesa fundada em 2013 que ensina programação por meio de bootcamps intensivos de nove semanas. Presente em mais de 25 cidades ao redor do mundo, ela contribui para que empreendedores e criativos em geral alcancem soluções para seus problemas por meio de novas ferramentas tecnológicas (construídas por eles mesmos!).

Conversamos com o publicitário Fernando Americano, um dos três sócios da franquia no Brasil, sobre o impacto do aprendizado de programação na cultura empreendedora.

 

1- Aprender a programar deixou de ser uma habilidade dispensável ou voltada só para nerds e se tornou uma necessidade nos dias de hoje. O que contribuiu para que isso acontecesse?

 

O que mudou é que hoje todo mundo tem um computador no bolso. A tecnologia permeia tudo o que fazemos, diferente de 15 anos atrás, quando nem todo mundo tinha um computador ou laptop. Estamos, o tempo inteiro, indo de uma tela para outra. Ela está presente na vida da gente e é cada vez mais acessível.  Por isso, usar a tecnologia a nosso favor e  aprender a entender a sua linguagem, criar ferramentas ou usar aquelas que o mundo digital propõe para solucionar problemas faz uma diferença muito grande. Quem tem esse conhecimento terá uma vida diferente, não só em relação ao mercado de trabalho, mas em todos os aspectos.

 

2- Muita gente ainda acha que programação é para quem trabalha diretamente com tecnologia. Como esse conhecimento pode mudar o rumo da vida profissional e até pessoal de alguém que não é da área de TI?

 

Com acesso à informação e automatização podemos transformar o nosso dia a dia. Vamos tomar o Google como exemplo. Atualmente a ferramenta está presente em nossas vidas e abre portas para uma infinidade de informações do mundo. Quem não sabe usar o Google, sabe menos sobre o mundo em que vive. No entanto, há 15 anos atrás era diferente. Naquela época, muitas pessoas eram familiarizadas com esse universo, mas outras viviam completamente offline. O mesmo acontece com a programação. Atualmente, quem programa tem acesso a algumas ferramentas que abrem novas perspectivas na internet. Quem programa consegue organizar melhor as tarefas, tem acesso a informações aprofundadas e consegue combiná-las de maneiras diferentes. Além disso, consegue pensar em soluções, seja para um novo produto ou para resolver um problema particular.

 

3- Programar é difícil? Como ensinar linguagem de programação a crianças e jovens?

Aprender programação é igual a conhecer um novo idioma ou tocar um instrumento musical. Você tem que querer bastante, porque os primeiros passos são dolorosos. Ao aprender inglês, por exemplo, você demora a começar a falar. Além disso, o aprendizado é constante, assim como o de um idioma, mas todo mundo é capaz de aprender a programar.

Hoje em dia vejo um certo deslumbre com a tecnologia. Ensinar programação não deixa de ser educação, é uma atividade pedagógica. Tanto para as crianças quanto para os adultos, o importante não é ensinar uma linguagem A, B ou C – até porque elas são todas iguais ou muito parecidas e daqui a alguns anos não vão nem existir mais. O importante, então, é fazer com que o aluno entenda a tecnologia, saiba como funciona o universo da programação e o que pode fazer com todo esse conhecimento. A tecnologia é sempre um meio para se chegar em algum lugar, não um fim. E o caminho é que empodera.

 

4- A filosofia do Le Wagon vai muito além do ensino de programação, mas está diretamente ligada ao desenvolvimento da atitude empreendedora nas pessoas. Fale mais sobre isso.  

Queremos formar pessoas que naveguem bem no mundo da tecnologia. Quando as pessoas veem os produtos que são desenvolvidos pelos alunos do Le Wagon, podem achar que para criá-los basta saber programar. Mas não. Criar uma solução é uma tarefa multidisciplinar, os produtos webs são soluções multidisciplinares. Envolvem criatividade, capacidade de propor soluções, design, trabalho colaborativo.  Buscamos desenvolver todas essas habilidades e usar a tecnologia para resolver problemas e gerar valor na vida das pessoas.

 

5- Na sua opinião, o que acontecerá ao mercado de trabalho e às instituições de ensino quando a linguagem de programação for amplamente conhecida e utilizada?

Atualmente as empresas não estão mais preocupadas se os colaboradores detém determinada informação, mas se eles são capazes de resolver problemas. Ou seja, elas valorizam outras habilidades que, até onde eu vejo, não estão sendo desenvolvidas na faculdade. Por isso, é necessário que as pessoas busquem outras alternativas de conhecimento, a não ser que as instituições de ensino se adaptem. As pessoas que sabem programar têm esse diferencial competitivo: usar a tecnologia e outras habilidades que dificilmente são desenvolvidas na escola.  

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