Tecnologia com leveza e significado - entrevista com Luiza Voll

Luiza Voll é publicitária e sócia fundadora da Contente, uma empresa de projetos autorais e de comunicação que busca fazer da internet um lugar melhor. É da Contente o famoso #instamission, projeto de missões fotográficas que inspira as pessoas a terem um olhar vivo para a cidade, o entorno e o mundo. Luiza, juntamente com a sócia Daniela Arrais, é responsável também por iniciativas como o Detox Digital, a série de conteúdos “Como Matar um Projeto”, o “Vai lá”, guia para incentivar escolhas mais conscientes, justas e honestas nas cidades, e o projeto #ainternetqueagentequer, que busca gerar reflexões sobre o papel da internet em nossas vidas.

Em entrevista ao CER, Luiza falou sobre o como o uso desmedido de tecnologia pode impactar nossas vidas e qual o papel das famílias e das escolas na educação de cidadãos mais conscientes em relação a elas. Confira:

1 – A Contente se define como um um conjunto de ações e ideias que busca fazer da internet um espaço mais humano, acolhedor, autoral e consciente. Qual o lado ruim e o lado bom da internet?

A internet é exatamente como a vida. Mas dependendo da bolha em que a gente vive, a internet transforma um microcosmo em uma lente de aumento e a realidade pode ficar deturpada.

Mas não existe essa separação de que na internet é pior do que na vida real. O que nós tentamos combater na internet é o que enfrentamos no dia a dia: a intolerância, qualquer tipo de preconceito. E isso só vem por meio da educação e do pensamento crítico.

Acho muito importante a gente colocar na conta da indústria da tecnologia, os problemas que vivemos. Falamos muito sobre o uso consciente da internet, a importância de períodos de “detox digital”, mas tudo isso são paliativos. É impossível resistir ao nível de tecnologia que está sendo oferecido. Precisamos estar conscientes e cobrar mais dessa indústria.

Estamos vendo alguma movimentação dos maiores players no sentido de promover um uso mais consciente. Temos telefone que mostra o tempo de uso e te deixa estabelecer limites e o próprio Instagram está criando funcionalidades parecidas. O que precisamos é saber se essas empresas, de fato, vão se responsabilizar por este uso desenfreado.

A essência do negócio dessas empresas é nos deixar ansiosos pelas recompensas, é checar o telefone várias vezes. Então não é tão simples quanto bloquear o uso. Vamos ver como serão os próximos passos nesse sentido.

2 –  Você é uma empreendedora digital que também defende e investiga os benefícios do “detox digital”. O que você tem aprendido com suas experiências pessoais? Qual o limite do uso da internet?

Para mim, o detox veio de uma estafa do digital, de perceber que eu estava cansada e ansiosa. Às vezes estava tudo bem e era só eu entrar nas redes sociais para não ficar tão bom assim.

Já não tenho conta pessoal do Facebook e, como não posso sair do Instagram por questões profissionais, optei por períodos de detox. Para mim, fazer detox é maravilhoso. Primeiro porque quando trabalhamos com isso, a internet não é só lazer. Para muita gente, as redes sociais acabam se tornando momentos de lazer e, para mim, não. Qualquer “checada” vira uma nova referência para pesquisar, uma novidade, e acaba se tornando muito cansativo. Então é uma forma de tirar férias do trabalho e também de entender o impacto das redes sociais na minha própria vida. Percebi que elas acabavam moldando o meu comportamento. É muito dúbio pois de um lado a internet me traz inúmeras felicidades profissionais, mas por outro lado eu penso: que horas eu descanso? qual momento é só meu?

Não acho que devemos todos sair da internet, mas esses momentos offline prolongados nos ajudam a ver nossos padrões de uso e como podemos melhorá-los.

3 – É preciso regular o uso que fazemos da internet? Colocar limites, estabelecer uma disciplina?

A gente tem um uso muito passivo da tecnologia, não refletimos sobre ele. É como o consumo de energia elétrica: acendemos a luz e pronto, já estamos consumindo. Acredito que só futuramente conseguiremos medir os danos que isso nos causa. O Brasil é um dos países com um dos maiores índices de ansiedade e temos hoje muito mais crianças com miopia, distúrbio de atenção. São vários fatores que têm o digital como ponto de atenção.

Por isso considero tão importante estimular o debate e o uso consciente. O mundo da internet é maravilhoso, o único problema é a medida.

4 – Qual o papel das escolas e das famílias no desenvolvimento da chamada cidadania digital e do uso consciente das tecnologias?

A tecnologia veio para facilitar. Mas às vezes ela facilita demais e acabamos perdendo a medida de até onde devemos delegar à tecnologia coisas que antes fazíamos sem ela. Primeiro, é preciso entender até onde a tecnologia pode nos ajudar dentro de casa ou em sala de aula. E ser firme, porque são escolhas difíceis.

Uma vez li que ensinar a navegar na internet é como ensinar uma criança a nadar: você alerta sobre os perigos e fica ali perto, acompanhando e vigiando. É importante estar junto e alertar sobre a complexidade que existe por trás da internet, o que pode ser feito com nossos dados, como as empresas usam essas informações, ensinar a responsabilidade pelo que se consome e se publica. Para isso, é essencial estar por perto. Antigamente, a televisão estava ligada e os pais escutavam o que a criança estava vendo. Hoje não tem como. Então, os pais e a escola devem ter um papel ativo. Procurar conhecer os ídolos das crianças, quais canais assistem e estimular o pensamento crítico. Pergunte por que ela gosta daquele conteúdo, por que admira determinada pessoa.

É importante também não se esquivar da responsabilidade de educação e do entretenimento. Porque se a gente quiser, a tecnologia faz tudo hoje em dia. A educação e o entretenimento podem estar ali, na tela. É muito comum ver os adultos terceirizando essa responsabilidade para a tecnologia.

E o próprio adulto deve repensar o seu uso. Se a gente está completamente fascinado e não conseguimos nos controlar, imagina uma criança ou um jovem? É um desafio diário.

5 – Que diferença o uso consciente e responsável da tecnologia pode fazer na vida do indivíduo (pensando no rastro digital, no mercado de trabalho, etc) e na sociedade como um todo?

Faz toda a diferença. A pessoa fica mais presente, consegue tomar decisões mais conscientes, não age no automático, consegue refletir, checa as notícias antes de passar adiante. O uso consciente te dá mais calma, você deixa de ser mais uma pessoa a causar o caos. Principalmente nesse período que estamos vivendo, precisamos de cidadãos firmes, que conseguem ter um olhar mais consciente e crítico. Estamos engatinhando nesse território ainda. Quanto mais pudermos falar sobre isso, melhor. A maioria das pessoas nem sabem que existe um problema na forma como elas usam a tecnologia.

Confira também a entrevista em vídeo que as empreendedoras deram para o projeto Mulher Empreendedora, do banco Itaú:

Você ainda pode acompanhar outra história de empreendedorismo na entrevista que fizemos com o fundador do projeto Lá da Favelinha, Kdu dos Anjos!

leia também

Saiba como transformar o TCC em ferramenta de empreendedorismo
continuar lendo
Intercâmbio profissional: como a experiência pode enriquecer a formação superior
continuar lendo
Aprender pela experiência: conheça a metodologia criada pela Perestroika
continuar lendo

Quer ficar sabendo de tudo antes? Assine a
newsletter e receba novidades no seu e-mail.

x
área restrita
Usuário
senha