Saiba como o avanço tecnológico da sociedade tem
feito com que educadores mudem a forma de ensinar.

Já pensou como será nossa vida em 2020? Há quem defenda que está cada vez mais próxima de nós uma realidade como aquela de filmes futuristas: veículos autônomos, inteligência artificial capaz de tomar decisões complexas e automatização em nível elevado, tornando obsoletas algumas funções antes ocupadas por força humana. Essa mudança iminente já tem nome, que surgiu pela primeira vez em 2011, durante a Feira de automação de Hannover, na Alemanha: Quarta Revolução Industrial.

Para o Fórum Econômico Mundial, estamos prestes a vivenciar uma revolução tecnológica que vai mudar completamente a forma que vivemos, trabalhamos e até mesmo como nos relacionamos uns com os outros. Esse novo universo será possível a partir da difusão de diversas novidades, entre elas a inteligência artificial, robótica, internet das coisas, realidade aumentada, impressão 3D, nanotecnologia e biotecnologia.

A mudança começa na indústria, que já possui exemplos de fábricas altamente automatizadas, que não necessitam da força humana para operar máquinas, mas sim para gerenciar o trabalho realizado por elas - o processo de moldagem dos blocos Lego, por exemplo, é quase totalmente automatizado. Mas a revolução para por aí: a tecnologia poderá ser capaz de substituir a fase de pesquisa em escritórios de advocacia, decisões sobre tratamentos médicos poderão ser tomadas automaticamente a partir da análise de dados e robôs serão capazes de tomar decisões por nós.

Como, então, caminhar junto com essas mudanças sem ser “vencido” pelas máquinas? A resposta está na valorização da criatividade, no conhecimento de novas linguagens e, principalmente, na educação.

O que mais se espera dos
profissionais: antes e depois

em 2015
  • Habilidade para solucionar problemas complexos
  • Coordenação
  • Gestão de pessoas
  • Pensamento crítico
  • Negociação
  • Controle de qualidade
  • Orientação para servir
  • Capacidade de julgamento e tomada de decisão
  • Escuta ativa
  • Criatividade
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  • 2
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  • 7
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em 2020
  • Habilidade para solucionar problemas complexos
  • Pensamento crítico
  • Criatividade
  • Gestão de Pessoas
  • Coordenação
  • Inteligência Emocional
  • Capacidade de julgamento e tomada de decisão
  • Orientação para servir
  • Negociação
  • Flexibilidade Cognitiva

Fonte: Fórum Econômico Mundial - Relatório sobre o Futuro do Trabalho

Jack Ma, fundador do Grupo Alibaba

Educação é um grande desafio agora. Se não mudarmos a forma como ensinamos, daqui a 30 anos teremos problemas. A forma como ensinamos, e o que ensinamos, é a mesma que 200 anos atrás. Não podemos instruir nossas crianças a competir com máquinas, porque elas são mais inteligentes. Temos que ensinar algo único, para que a máquina nunca possa nos acompanhar.

Jack Ma, fundador do Grupo Alibaba, plataforma de comércio on-line chinesa, durante conferência do Fórum Econômico Mundial, em 2018.

Uma nova forma de ensinar

Enquanto se espera que num futuro próximo as máquinas sejam capazes de substituir postos antes ocupados por humanos, aumenta-se, também, a necessidade de haver, no mercado de trabalho, profissionais cada vez mais especializados e capazes de “conversar” com essas máquinas. Ou seja, programação e robótica são conhecimentos que se fazem cada vez mais necessários para lidar nesse novo cenário.

No entanto, além disso, esse novo universo demanda que sejamos cada vez mais criativos, capazes de trabalhar de forma colaborativa e com vivências que nos possibilitem encontrar soluções inovadoras para os problemas que surgem em nosso dia a dia. “É um campo muito produtivo, uma vez que a criatividade finalmente passou a ser entendida como habilidade, capaz de ser desenvolvida. As escolas passam, então, a olhar para isso, em um movimento que vem de uma ânsia do mercado de trabalho, que busca esse tipo de característica”, comenta a educadora Maria Carolina Mariano, coordenadora pedagógica da escola de educação infantil Casa Fundamental (saiba mais abaixo).

Para responder a essas novas demandas da sociedade, o ambiente escolar tem mudado. E essas mudanças recebem um nome especial: educação 4.0.

O que é Educação 4.0?

Como resposta a essa necessidade de formar pessoas de uma maneira distinta, surgiu a educação 4.0. O termo compreende uma série de estratégias de ensino que vão ao encontro deste incipiente cenário do mercado de trabalho e da sociedade, em contraponto ao modelo tradicional:

Como disse o fundador do Alibaba*, a forma tradicional de ensino é antiga e surgiu da mesma forma como acontece agora: da fábrica. A primeira Revolução Industrial colocou milhares de trabalhadores nas fábricas, que precisavam aprender rapidamente, e da mesma forma, como exercer suas atividades. A partir daí, foram criadas estratégias que existem até hoje, como a padronização do conhecimento, a hierarquização e o modelo transmissional, focado na figura do professor como entidade superior ao aluno. Já parou para pensar que o ensino dividido em matérias, as trocas de turno e até mesmo o horário de longe lembram bem o esquema de uma fábrica?

* O Grupo Alibaba é uma holding chinesa focada em fornecer soluções para o comércio online. Um de seus negócios mais conhecidos no Brasil é o site de compras AliExpress.

A mudança no paradigma se faz necessária para que as pessoas sejam capazes de acompanhar a revolução tecnológica que vem principalmente da indústria, mas que também já tem alterado a forma como pagamos nossas contas, nos relacionamos e até mesmo aprendemos.

Há quem diga, por exemplo, que o principal desafio da educação 4.0 é formar crianças para profissões que ainda estão por surgir. Por isso, ao invés do ensino focado em técnicas específicas, o que se propõe é ir além. Ensinar programação, usar tecnologia em sala de aula, aprender por meio da experimentação e desenvolver características socioemocionais estão entre as características principais da educação 4.0, que busca formar cidadãos capazes de inovar e solucionar problemas, em qualquer campo de conhecimento.

Veja, a seguir, os principais pontos dessa revolução que já está acontecendo.

Tecnologia a favor do ensino

A Quarta Revolução Industrial já coloca à disposição de educadores diversas possibilidades para customizar a aprendizagem de cada aluno. Se, antes, fez-se necessário padronizar a experiência do estudo, agora é possível personalizá-la, através do uso de aplicativos de estudo, plataformas de ensino online, fóruns de discussão, videoaulas etc.

E é isso que o estudante quer: uma pesquisa do Instituto Porvir, focado no incentivo à inovação na educação, ouviu 132 mil alunos em 2016 para a pesquisa Nossa Escola em (Re)Construção. Um dos resultados mostra que 66% dos alunos acredita que não podem faltar no ambiente estudantil atividades como olimpíadas de conhecimento, oficinas de criação de mídia e laboratórios.

Além disso, há cada vez mais opções disponíveis para que levar mais diversão e interatividade à sala de aula. Conteúdo em formato de jogo, tela como apoio para ensinar conteúdos mais abstratos, acesso a redes de conhecimento de outros estados ou países e troca de informações em formato de fórum são algumas das possibilidades que já são usadas nas escolas.


Para 55% dos alunos, a tecnologia não deve estar presente apenas no laboratório de informática.


Fonte: Fórum Econômico Mundial - Relatório sobre o Futuro do Trabalho

Sebrae

Um novo idioma a aprender: programação

Se, num futuro próximo, máquinas e robôs que conversam entre si estarão cada vez mais presentes em nosso dia a dia, quem souber esse idioma sai na frente no mercado de trabalho. É por isso que educadores vêem a programação como a linguagem em voga do presente, do século 21.

Ensinar programação não significa tornar todos os alunos gênios da computação. Quem conhece essa linguagem defende que é preciso entendê-la para, além de utilizarem computadores e celulares, crianças e adolescentes possam se tornar produtores de conteúdo e solucionadores de problemas cotidianos. Raciocínio lógico, trabalho em equipe e criatividade são algumas das habilidades que um aluno que estuda programação pode desenvolver enquanto aprende nessa área.

STEM como sinônimo de inovação

Se há muitas possibilidades a serem exploradas na educação 4.0, grande partes delas estão concentradas em cinco áreas de conhecimento: Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática - ou STEM, termo usado para abreviar as cinco palavras em inglês. Educadores defendem que a aprendizagem STEM traz consigo conceitos importantes, como a interdisciplinaridade, o aprendizado por meio de projeto, o pensamento crítico, a avaliação e resolução de problemas e a interpretação de informações.

O Fórum Econômico Mundial defende, por exemplo, que uma trajetória estudantil de alta qualidade nessas áreas é capaz de fazer com que indivíduos, no futuro, sejam capazes de enfrentar grandes desafios - o que será muito importante num futuro provavelmente marcado por mudanças climáticas e alterações profundas na organização da sociedade.

Também são nas STEMs onde há mais possibilidade de testar e criar novas soluções a partir do uso de novas tecnologias, como a robótica, cortadores a laser e impressoras 3D. Nesse ponto, o laboratório ganha ares de pequena fábrica colaborativa, em que experimentação leva à inovação.

O poder transformador da cultura maker

Imagine um ambiente equipado com impressora 3D, cortadoras a laser, kits de robótica e boa velocidade de internet. Adicione pessoas curiosas à essa cena, envolvidas em usar toda essa tecnologia para testar alguma ideia. Quando o projeto de um não funciona, o outro pode dar sua opinião, baseada em um erro anterior já solucionado. E, a partir dessa colaboração, soluções inovadoras vão surgindo.

É mais ou menos dessa forma como funciona a cultura maker, completamente ancorada no conceito do aprendizado através da experiência e na capacidade das pessoas em fazer e não apenas consumir. Para a educação 4.0, esse tipo de estratégia é essencial na formação de cidadãos antenados na mudança. Especialistas defendem que a metodologia do aprender fazendo é capaz de desenvolver a criatividade, colaboração e empreendedorismo - características que, como já vimos, serão diferenciais em uma realidade marcada pelas mudanças da Quarta Revolução Industrial.

É por isso que empresas e instituições de ensino renomadas têm apostado na cultura maker para encontrar soluções inovadoras. Um deles é o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que apostou, no ano de 2001, em um projeto de extensão do Center for Bits and Atoms para proporcionar fab labs - ou laboratórios de fabricação - para que alunos pudessem prototipar ideias e testar projetos.

A ideia fez tanto sucesso que mais fabs labs foram sendo instalados em outros locais, criando uma rede de colaboração e inovação através da experiência e da prototipagem. Atualmente, são mil laboratórios distribuídos em mais de cem países. Um deles é o Fab Lab Recife, espaço totalmente focado em três objetivos: desenvolver novos produtos e solucionar problemas de forma criativa, estimular o aprendizado de tecnologias relacionadas a esse universo e facilitar a prototipagem de ideias (saiba mais sobre essa iniciativa nesta postagem - link para entrevista com membro do Fab Lab Recife).

Maria Carolina Mariano

Se avaliarmos as práticas de ensino da primeira infância, vemos que todo o processo é o de aprendizado pela experiência. Vários estudiosos já perceberam, há mais tempo, a importância desse tipo de metodologia. Somos seres naturalmente criativos e a escola, quando privilegia a transmissão de conteúdo e repetição, pode cercear possibilidades. Nosso papel, como educadores, é fazer o contrário: proporcionar experiências diversas e distintas aos alunos.

Maria Carolina Mariano, coordenadora pedagógica da Casa Fundamental.

Falando com máquinas, mas lidando com humanos

Se antes as escolas estavam focadas no desenvolvimento técnico de seus alunos, a educação 4.0 preconiza formar pessoas capazes de encontrar soluções inovadoras para problemas da sociedade. Já não se trata de aprender a usar uma máquina, mas entender como ela funciona e como ela pode melhorar nossa vida. Para isso, também é necessário entender a realidade de outras pessoas - para conhecer suas necessidades, trabalhar em equipe e tomar decisões éticas responsáveis. Ou seja, é preciso incluir o desenvolvimento de habilidades socioemocionais para que a equação do futuro dê certo.

Um estudo do Fórum Econômico Mundial sobre educação defende que a proficiência social e emocional, combinada com o ensino de habilidades tradicionais, é o caminho certo para formar alunos capazes de se destacarem na economia digital que está em evolução. É dessa forma que várias escolas têm trabalhado, buscando proporcionar uma formação integral que ultrapassa o aprendizado de matérias e ensina habilidades não-cognitivas, como senso de colaboração, resiliência, empatia e compaixão.

Maria Carolina Mariano

Esse aspecto deveria ser um dos pilares da escola desde sempre. O que buscamos fazer, já desde muito tempo, é estabelecer um ambiente afetuoso, de respeito, onde as relações humanas são valorizadas na essência e como foco para o desenvolvimento integral do aluno.

Maria Carolina Mariano, coordenadora pedagógica da Casa Fundamental.

O século 21 precisa de você e dessas 16 habilidades

Um caminho importante para o sucesso profissional no século 21 é o do empreendedorismo. Ainda que muita gente não queira investir nas próprias ideias, diversas características intrínsecas à atitude empreendedora são vistas como essenciais para o futuro dentro e fora de empresas, como colaboração, curiosidade, criatividade e a capacidade de se adaptar. Veja a lista do Fórum Econômico Mundial das habilidades essenciais para prosperar na Quarta Revolução Industrial.

Alfabetizações fundamentais
  • Linguística
  • Numeral
  • Científica
  • Tecnologia da informação e comunicação
  • Financeira
  • Cultural e cívica
Competências
  • Pensamento crítico e capacidade de solucionar problemas
  • Criatividade
  • Comunicação
  • Colaboração
Qualidades individuais
  • Curiosidade
  • Iniciativa
  • Persistência e determinação
  • Adaptabilidade
  • Liderança
  • Consciência social e cultural

Fonte: Relatório Nova Visão para Educação (2015) - Fórum Econômico Mundial Celeiro de boas ideias

Se você acha que toda essa revolução educacional está distante de acontecer no Brasil, veja a seguir alguns exemplos de como a escola tem mudado em nosso país.

Escola Projeto Âncora - Cotia (SP)

Criada em 2012 a partir do trabalho da ONG de mesmo nome, a escola rompe com a forma tradicional de ensino, focada em matérias, séries e provas periódicas e adota a metodologia do ensino através do convívio, troca de experiências e desenvolvimento de projetos interdisciplinares. Para isso, a escola envolve os alunos no planejamento, incentiva-os a pesquisar e a brincar, além de realizar oficinas, rodas de conversa e assembleias. O objetivo vai além de preparar estudantes nas disciplinas obrigatórias, formando também cidadãos autônomos e protagonistas da mudança.

Casa Fundamental - Belo Horizonte (MG)

Uma escola pequena, que prioriza o ensino personalizado em um ambiente que desperte a segurança, mas, ao mesmo tempo, a curiosidade. Essa é uma das características da Casa Fundamental, que tem como metodologia a aprendizagem baseada em projetos para o desenvolvimento integral do aluno. Inaugurada em 2017, a instituição também orienta o ensino a partir de múltiplas alfabetizações - para além do ensino de português, matemática e inglês -, inclui yoga e meditação entre as atividades de seus alunos e vê, na cantina, uma oportunidade de ensinar a comer de forma prazerosa e saudável.

Social Brasilis - CEARÁ

O negócio social busca incentivar e acompanhar o desenvolvimento de projetos de tecnologia que têm o potencial de gerar impactos sociais positivos em comunidades do estado. Uma das metodologias usadas é a gameficação. Através de um jogo de sete fases, o aluno desenvolve habilidades de gerenciamento de projetos, gestão de tempo e de pessoas, captação de recursos, comunicação, liderança e trabalho em equipe. Além dessa estratégia, o Social Brasilis realiza oficinas de inclusão digital, planejamento pessoal estratégico e apoia empreendedores no processo de aceleramento de negócios de potencial impacto nas comunidades onde está presente.

Bootcamp de programação do LeWagon (BRASIL)

Ensinar em dois meses um conteúdo que é transmitido tradicionalmente em dois anos. Essa é a proposta do bootcamp de programação da escola Le Wagon, que já formou quase 2.500 alunos. O curso promete formar programadores capazes de prototipar rapidamente suas ideias, através da criação de aplicações web próprias. Para isso, ensina aspectos do desenvolvimento web, apresenta as ferramentas mais utilizadas no universo das startups e incentiva a criação de projetos autorais.

Caminho sem volta

Seja mostrando a importância do aprendizado pela experiência ou proporcionando estruturas tecnológicas para o desenvolvimento de projetos, a educação 4.0 vem surgindo como solução para lidar com os desafios de um futuro próximo. Ela vem para subsidiar e possibilitar as mudanças que a Quarta Evolução Industrial tem proposto. Aprender dessa forma, estar em contato com a cultura maker e entender que a atitude empreendedora não se limita a quem deseja ter o próprio negócio são algumas das atitudes necessárias para quem deseja se destacar nesse novo cenário. Para começar, basta colocar a mão na massa.

No Centro Sebrae de Referência em Educação Empreendedora, temos a
missão de disseminar o empreendedorismo nos projetos educacionais.
Acreditamos que essa é uma forma de preparar alunos e o mercado de
trabalho para as mudanças constantes que vivenciamos.
Quer ampliar ainda mais seus conhecimentos na área? Confira nosso blog!

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